Confissão #29

Capítulo II – Parte II

Infelizes são os pássaros que morrem pagãos

- Zé, você nunca se confundiu? Nunca achou que era ela quem chegava e, afinal, não era?
- Depois de saber que ela existia em algum lugar, nunca. Mas também não a reconheci imediatamente – respondeu, os olhos fixos nos meus, em um gesto de confirmação da certeza.
Eu também já sei. Percebeu que falo com você como se já estivesse aqui ao meu lado? É que eu o sinto. Sei desse seu jeito de franzir o rosto e piscar os olhos enquanto presta atenção ao que digo; é a sua maneira de pontuar meus pensamentos. Sei de um modo de correr as mãos pelos cabelos, prendendo os fios entre os dedos. Sei do modo de sorrir quase constante, e apenas de leve, e eu sem perceber se é de aprovação ou não. E quando você sorri assim eu quase me esqueço do que ia dizendo. Mas saiba que B. talvez tenha sido o primeiro que pensei ser você.
Fui a única que B. deixou segurá-lo, e tenho quase certeza de que naquele momento eu vi você nele.
- É tão leve – comentei, amparando delicadamente o minúsculo filhote de passarinho.
- Esse é bem novinho – respondeu B., a voz baixa em respeito à delicadeza do pássaro. – Deve ter nascido ainda esta noite.
- E são sempre feinhos assim? Sem penas?!
- Não, só quando estão novinhos. É por isso que caem dos ninhos. Eles ainda não podem voar; e querem acompanhar as mães quando elas saem para buscar comida.
- O que eles comem?
- Insetos, minhocas... Quer me ajudar a procurar?
B. se modificava quando falava dos passarinhos, uma doçura que às vezes eu achava provar em sua voz quando se dirigia a mim também. Sempre que cuidava da asa quebrada de um passarinho até que o visse bom e apto a voar, procurava-me para que eu o soltasse. E se demorava ao passá-lo para minhas mãos, as suas tremendo tanto quanto o animalzinho. Ficávamos os dois naquele contato bom e cheio de vergonha, sem ousarmos erguer os olhos de quem era o nosso cúmplice no sentido inverso do aprisionamento: o passarinho que ansiava pela liberdade; enquanto nós dois ficávamos mais e mais encantados pelo sentimento que nos prendia um ao outro. O mesmo sentimento que também nos libertava da busca, que nos libertava de continuarmos procurando um amor por toda a vida.
Não me lembro mais das feições de B., assim como desconheço as suas. Já tentei compor seu rosto com recortes de revista, procurando por uma cor de olhos que me agradasse, uma boca que eu quisesse beijar; mas nada combina. Então eu te acho cada dia mais parecido com B. e agora percebo que te amo como o amei. A mesma entrega, a mesma falta de escrúpulos para assassinar as incertezas: eu te amo, você me ama, e pronto! Nada mais importa. É tão simples e tão bom assim, sem complicações, sem orgulho besta... Talvez com o último amor fecha-se um círculo, volta-se ao ponto de partida.

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O mês de maio já vai pela metade e combina comigo o arrastar do outono nesses dias mornos e preguiçosos. Próprios de espera, indecisos entre o verão e o inverno. Despovoados. A praia é toda minha, com espaço de sobra para espalhar por aí as nossas memórias. Gosto de estar só, nenhuma testemunha, ninguém para lançar um olhar reprovador ou invejoso na reação que terei ao te encontrar. Já a ensaiei muitas vezes, mas tenho a sensação de que nada vai sair como planejado, que o acaso tem lá seus caprichos. E é bom que seja assim.
Se eu pudesse escolher, gostaria que você chegasse numa terça-feira. Existe dia mais sem propósito que terça-feira? Não é véspera nem ressaca de nada, nem sei se já foi tema de poesia. E depois da sua chegada, quando me perguntarem qual meu dia da semana preferido, poderei dizer “terça-feira”. Você conhece alguém que as prefira? Não é dia de ir à igreja nem de comer massa, e muito menos dia de promessas não cumpridas – começar regime, parar de fumar, amar até que a morte nos separe. Para mim as terças-feiras são picadeiros vazios e eu quero que tenhamos uma grande estréia.
Talvez eu esteja na praia, com os pés afundados na areia, esperando que você chegue e me toque. Não necessariamente com as mãos, mas com o dom de me devolver o deslumbramento infantil. Aquele que vai fazer com que eu me solte das garras dos meus temores e me atire de novo à vida. Porque o meu amor por você terá em mim o efeito mágico e invisível do fio condutor das marionetes, só que preso por dentro. Já sentiu o amor assim? Cheio de tentáculos, alguns de pontas afiadas que rompem a carne como ganchos metálicos em brasa: dilacera, rasga; mas nada dói. Os outros, os tentáculos dotados de ventosas, agarram, mordem, sugam e são capazes de conter debaixo de si o poderio de energia de bombas atômicas. Tentáculos que nos prendem às avessas, hábeis mãos alheias à nossa vontade.

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- Dona Ana, olha lá! – a voz de D. Isabel me desprendeu dos tentáculos.
Estávamos as duas sentadas na mureta que separa o jardim da areia da praia, como sempre fazíamos todos os dias logo após o almoço. Pensando em você eu tinha me esquecido da presença dela ali ao lado. D. Isabel apontava para o homem que vinha caminhando da ponta direita da praia.
- É aquele lá , não é?
Sim, era o Zé. Eu nunca mais o tinha visto depois daquele nosso primeiro encontro, mesmo fazendo constantes caminhadas ao entardecer. Mas era inconfundível o jeito de ele andar, como se chutasse o vazio à sua frente; reparei nisso quando ele se afastava, naquele dia. Alto, magro, os braços balançando ao longo do corpo e parecendo mais compridos do que o normal. Vestia um chapéu enterrado na cabeça até quase a linha dos olhos, debaixo do qual saía a longa cabeleira encaracolada e grisalha. O cabelo tinha quase o mesmo comprimento da barba, que ele usava cuidadosamente presa em uma trança arrematada com uma fita, de onde pendiam alguns búzios. Não sei se ele os tocava com o ritmo dos passos ou se era o contrário, se eram os búzios que, batendo entre si e na cavidade do peito, embalavam a caminhada. Não tive coragem de chamá-lo quando passou por nós, alheio a tudo, envolvido por seu mundo interior.
- Vive aqui há muito tempo, e é louco a não poder mais – comentou D. Isabel, acrescentando que eu tomasse cuidado com ele.
Não era esta a impressão que eu tinha, de o Zé ser alguém com quem precisasse tomar cuidado. Talvez fossem excessos da D. Isabel, que desde que cheguei aqui me trata como a uma filha. Trabalha há mais de dez anos para o proprietário da casa de veraneio que aluguei, e já no primeiro dia fez com que eu perdesse o medo de me sentir muito sozinha por aqui. Cheguei bastante cansada, depois de um vôo turbulento por causa da chuva que nos acompanhou durante todo o trajeto. Mais uma hora de táxi e mais outra de balsa, para encontrar a D. Isabel à minha espera com um bolo, sucos e frutas para o lanche da tarde. No início percebi que me olhava com um ar de curiosidade; não devia ser muito comum receber uma mulher sozinha, fora da temporada de veraneio e ainda mais para ficar por tanto tempo. Sentou-se comigo; queria saber como eu gostaria que o serviço fosse feito. Eu preferi que ela cuidasse disso, que continuasse tomando conta de tudo como se fosse dela.
- Mas a senhora parece uma menina! Tão bonita... – ali adquiriu ares de mãe.
Eu só estranhava o “senhora” ou o “dona”, que por muitas vezes disse não serem necessários. Mas D. Isabel se sentia mais à vontade assim, fazia um esforço enorme para dizer apenas “Ana” quando eu a corrigia. Parei de me incomodar e de constrangê-la. Apesar do tratamento formal, provavelmente condicionado por anos de trabalho, ela me trata de uma maneira muito carinhosa. Estou ficando mal acostumada com tanta atenção, mas reaprendendo algo que há muito tempo não me permito: ser cuidada.

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- Promete que vai cuidar bem deles?
Já ouvíamos os gritos dos pais de B. dizendo que iam deixá-lo se ele não aparecesse imediatamente. Ele segurava as minhas mãos sabendo que eu queria a mesma coisa: que o deixassem, que fossem embora sem ele. Era conflitante como nós, que nos amávamos tanto, nos despedíamos com tamanho ódio. De quem nos separava, de quem permitia que isso acontecesse, do mundo inteiro onde não havia uma pessoa sequer disposta a nos ajudar. Alguém que entendesse que queríamos estar sempre juntos, e que para isso bastavam umas palavras: “Você, B., não precisa ir”. Mas ninguém dizia nada e nem havia nada que pudéssemos fazer. Dentro de alguns instantes B. iria embora, e no fundo já sabíamos que seria para sempre. Eu odiava até mesmo Deus, e me odiava por isso. A mãe chamando-o, a voz cada vez mais perto, e foi melhor que ele atendesse logo, antes que ela violasse nosso esconderijo. O espaço onde prometemos que ninguém mais colocaria os pés. Era nosso, só nosso. O pai, um louco insensível na buzina do carro, e eu só conseguia pensar que eles um dia se arrependeriam, todos, o mundo todo. Que eu nunca mais deixaria alguém me separar do que fosse importante pra mim, que ninguém mais me causaria tanta dor. E durante muitos anos repeti, dia após dia, as últimas palavras que ouvi de B., até entender que ele falava de felicidade:
- Cuida bem de você...

2 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

"Se eu pudesse escolher, gostaria que você chegasse numa terça-feira. Existe dia mais sem propósito que terça-feira? Não é véspera nem ressaca de nada, nem sei se já foi tema de poesia."
Gosto desse trecho, dessa linha de pensamento da Ana do livro.
Beijos, :).

2/07/2006 09:30:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Sempre às terças, Matilda, sempre às terças... São dias especiais sim, com certeza. Mereciam um de seus poemas...
Beijos,
Ana

2/09/2006 12:36:00 AM  

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