Confissão #28

Vou publicar o Ao lado e à margem... aqui, aos pouquinhos, enquanto o releio também. Serão textos longos, o que não é muito indicado para blogs. Mas queria que esse livro ficasse aqui, pois acredito que só o escrevi porque comecei antes a escrever um blog. Continuarei entremeando outras Confissões, ou confissões de outro tipo, e assim que tiver um tempinho coloco links aí do lado para os posts com a ordem certa do livro.


Capítulo II – Parte I
Infelizes são os pássaros que morrem pagãos


B. era dois anos mais velho; eu não tinha mais do que cinco ou seis. Estava tudo planejado, apenas esperávamos um momento em que minha mãe saísse do quarto onde costurava para pegarmos uma agulha. Eu tive a idéia e ele executou. Primeiro nele, talvez para me impressionar. Quando falei em desistir, com medo que doesse, B. não deixou e tratou logo de garantir pelo menos meio pacto. Tentou me convencer de que os olhos umedecidos eram por causa de um cisco, não da dor. Mas ela doía em mim também, pois nos amávamos de uma maneira que nos tornava quase um, quase anjo antes de virar menino e menina.
- Fecha os olhos. Não vai doer nada, tá?
Amei-o ainda mais naquele momento, sabendo da minha falta de coragem em fazer o mesmo com ele, em concretizar o pacto. B. pegou minha mão com a mesma delicadeza com que devolvia filhotes de passarinhos caídos do ninho, colocou meu dedo na boca e sugou, para que o sangue se concentrasse na ponta. E furou, uma só agulhada, uma dor fina e vertical. Dedo contra dedo, ele fazia um esforço enorme para manter a voz firme:
- Você repete tudo que eu falar, está bem?
Havia muito eu já tinha perdido a vergonha das lágrimas, antes mesmo de me impressionar com o filete de sangue. Apenas balancei afirmativamente a cabeça, sem saber se teria algum comando sobre as palavras.
- Eu...
- Eu
- Prometo ficar com você...
- Prometo ficar com você
- E me casar daqui a dez anos...
- E me casar daqui a dez anos
- E ter seis filhos...
- E ter seis filhos
- E viver feliz para sempre...
- E viver feliz para sempre
- Em nome do Pai...
- Em nome do Pai
- Do Filho...
- Do Filho
- Doespiritosantamém!
- Do Espírito Santo, Amém!
B. correu para casa, mal engolindo as últimas palavras junto com o choro, mantendo-se firme no propósito de não derramar uma lágrima sequer na minha frente. Deixou-me lá, parada, acreditando que tinha feito um pacto com a felicidade também. Um gosto doce na boca.

#

- Você sabia, Zé, que sangue tem gosto doce?
Lembrei-me da história de B. ao me livrar da farpa. Foram instintivos, a lembrança e o gesto de levar o dedo à boca depois de retirar o minúsculo pedaço de madeira. Quanto tempo? Vinte e cinco anos?! Deu vontade de saber de B., por onde andaria, que bem ou mal terá causado a ele o pacto que não cumprimos. O que estaria fazendo àquela hora? Provavelmente não estaria sentado numa praia a rabiscar desenhos e palavras na areia, com um pedaço de madeira que deve ter sido de algum saveiro. Ainda trazia nos veios as marcas de tinta vermelha.
- Zé? Está me ouvindo? - sentado sobre os calcanhares e sem tirar os olhos do mar, que parecia enxergar mas não ver, Zé disse que sim, balançando o corpo pra frente e pra trás. Às vezes eu tinha medo de ficar igual a ele.
- Mas eu acho que combina mais com um gosto picante. Você não acha, Zé? – insisti.
Eu fazia as perguntas, mas não esperava pelas respostas. Vício ou prevenção da loucura, para não achar que estava falando sozinha, hábito de infância. Ele falava pouco, a não ser quando era sobre a sua história, que eu não me cansava de ouvir nem ele de contar, tendo muito cuidado em usar sempre as mesmas palavras. Mantinha o olhar fixo no horizonte, como se estivesse lendo um script e obedecendo à marcação de entonação de voz, gestos e falas de personagens; não querendo roubar as palavras nem as emoções que pertenciam aos outros. Chorava, sorria e fazia longas pausas como se estivesse pensando. Da primeira vez achei que ele tinha esquecido o texto de uma história muito antiga. Mas depois vi que não, que a vida, naquele instante, é que necessitava de silêncio.
- Sabe, Zé, às vezes acho que estou ficando louca, que esta minha espera é absurda, que ele não vem. Mas outras vezes eu o sinto tão próximo...

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O Zé é a única pessoa que sabe o verdadeiro motivo de eu ter vindo parar nessa ilha. Evito falar disso pois tenho medo de me confundir. Já inventei tantos motivos que posso muito bem trocá-los de pessoa para pessoa. Talvez até já tenha feito isso, e alguma alma generosa tratou de fingir que não percebeu. O certo é que não tenho coragem de dizer para mais ninguém que estou aqui esperando por você, o homem que eu amo, mas que não sei quem é, de onde vem ou quando vem. Dei-te três meses, mas acho que chega antes, ou pelo menos antes que eu pense que a espera é vã. A espera do Zé já dura tantos anos que nem ele sabe ao certo; precisa parar para fazer contas, embora tenha excelente memória para todos os outros fatos. Ele diz que é uma espera anterior à consciência que tem dela. Acredito que a vida assim, em suspenso, obedece a uma outra contagem de tempo, mais ou menos lenta conforme as certezas vêm ou vão, e para equilibrá-lo contamos histórias um ao outro, eu e o Zé, desse jeito mesmo, como quem as escreve, como conto agora para você.
Conheci o Zé em um final de tarde, quando saí para caminhar pela praia. Gosto daquela hora em que o dia empalidece; sempre me pareceu que agoniza, mas daqui tenho visto de uma outra maneira. Estava acostumada a ter o sol se pondo atrás de edifícios e não me lembrava do quanto é bonito vê-lo se deitar lentamente, desaparecendo sobre a linha do horizonte. A tal hora, ele, o sol, já está quase em paralelo com a superfície da Terra. Às vezes já há no céu uma lua branca, no mar uma tranqüilidade infinita e, na areia, sombras espichadas pela luz do sol. Tão espichadas que os dois meninos, sobre os cavalos, pareciam dois Quixotes saídos de um quadro de Portinari; lindos e disformes, altos e esguios, apenas sem as espadas. Vieram detrás de mim num trote suave, o barulho dos cascos amortecido pela areia. Passaram um de cada lado, ao mesmo tempo, os dois meninos montados em dois belos animais, um todo negro e o outro malhado. Éramos os únicos na praia àquela hora e os observei até que sumiram alguns metros adiante, na curva à direita que fazia o contorno da baía, a praia avançando sobre o mar. Eles e suas sombras à frente, muito à frente, abrindo caminho.
Quando também cheguei à ponta da praia vi que um homem observava os meninos. Inquieto, andava de um lado para outro, abaixava-se para olhar a cena e logo em seguida se erguia e repetia o mesmo gesto em outra posição. Com as mãos espalmadas na frente do rosto, os polegares unidos e os indicadores levantados, formando três lados de um quadrado, procurava o melhor enquadramento. No mar, os dois meninos e seus animais.
Aproximei-me, mas o homem não desviou o olhar, concentrado. Como se estivesse realmente filmando uma cena para depois projetá-la na memória. Entendi o porquê da criteriosa escolha do ponto de observação. Ele tinha diante dos olhos os dois meninos banhando os cavalos no mar e emoldurados por uma luz mágica, a do sol que já ia baixo. Eles mergulhavam as mãos em concha na água e a atiravam para cima, molhando os cavalos e a si mesmos, como numa chuva particular. Uma alegria barulhenta, uma sinfonia de risos, gritos, brincadeiras e pulos para alisarem o dorso dos animais. Mas era acima de tudo uma festa de cores. A água que atiravam para cima, a que deslocavam do mar com seus pulos, a que era lançada longe quando os cavalos sacudiam os corpos e as crinas encharcadas. Minúsculas gotas transformadas em prismas, fragmentando a luz num caleidoscópio furta-cor. Às vezes os movimentos coincidiam e uma cortina mais espessa de água recebia um arco-íris, que vivia apenas por alguns segundos. A intensidade e a beleza das coisas breves e finitas, que morrem em si mesmas, que se esgotam no próprio ato.
Tudo durou apenas alguns minutos, mas o suficiente para que eu me sentisse guardiã de um grande segredo: o das pequenas coisas, o dos instantes singulares, daqueles que passam desapercebidos quando estamos focados no grandioso e no perene. Isso me ensinaram o mar e o sol daquele fim de tarde. Imensos, fortes, poderosos, mas se pondo em segundo plano diante dos meninos e de seus cavalos. Os dois, indiferentes a tudo, sumiram por alguns instantes num mergulho, pegaram os animais e saíram do mar sem ao menos me notarem, e sem notarem o homem. Nos andares sem pressa, mas decididos, demonstravam uma felicidade de quem ainda acredita que a vida é toda feita de momentos assim. E talvez aqui seja mesmo, pois o homem ao meu lado ainda olhava maravilhado para o espaço vazio na nossa frente, como se continuasse a ver algo que eu não via mais.
- Conhece os meninos? – perguntei, tentando puxar conversa.
- Ssshhhhh – ele respondeu, pedindo silêncio, de uma maneira suave que fez com que eu me envergonhasse de interferir na sua contemplação.
Fiquei em dúvida se era mesmo comigo ou se foi apenas uma coincidência. Aconteceu que naquela hora, o sol, uma enorme bola alaranjada, tocava o mar. Fogo e água. O chiado inaudível de mais um dia se apagando.
- Vai chegar num dia assim – surpreendeu-me o homem com a frase dita do nada.
Deixou-me novamente confusa, sem saber se falava dele ou de mim. Porque eu também aguardava uma chegada que combinaria muito bem com um dia assim: a sua.
O homem então me olhou nos olhos e segurou minhas mãos, como quem vai dizer uma verdade insuportavelmente grande para que eu a agüentasse sozinha. Não senti medo, pois já havia entre nós a cumplicidade de quem é capaz de se emocionar com um mesmo acontecimento.
- Sabe a razão desta marca? – perguntou.
Apontava em minha mão esquerda a marca deixada por uma aliança que esteve ali durante cinco anos. Dois anos depois de retirá-la, o sol ainda não havia conseguido apagar a marca. Não entendi a pergunta.
- Por que ela dura tanto tempo, ou por que eu a tenho? – tentei esclarecer.
- Não. Por que ela está aí, essa marca do seu passado?
- Acho que você não espera que eu diga que é porque fui casada...
Na verdade a marca nunca me incomodou, assim como também não me incomoda a lembrança do meu casamento, nem a do seu fim. Não por ter sido algo banal, muito pelo contrário, mas por ter durado exatamente o quanto deveria. Às vezes gosto de conversar sobre isso, sobre as relações que não passam do ponto. Estava pensando por onde começar, se pelo início ou pelo fim, quando o homem me interrompeu com uma história sobre alianças.
- Antigamente só as mulheres usavam, mas não nos dedos, era nos joelhos ou nos tornozelos. Sabia? Era a marca das mulheres raptadas para servirem de escravas sexuais. Para que não fugissem elas eram presas com uma aliança. Depois, essas alianças passaram a ser colocadas no pescoço... Reparou que aqueles cavalos que acabamos de ver não usavam rédeas?! Belos e livres, presos pelos cuidados dos donos... – fez uma longa pausa e voltou a falar das alianças - E só então passaram para os dedos.
Eu não sabia o que dizer. Ele continuava aprisionando meus olhos com os dele, como se esperasse uma resposta. Sentiu o meu embaraço.
- Não há resposta a ser dada aqui, menina. Só uma coisa: algumas marcas, se não incomodam, não vão se apagar nunca. Essas sim, são alianças.
Começava a escurecer e estávamos os dois ainda sentados na areia. O homem se levantou, tirou a camisa e me mostrou a pele repuxada do peito e da barriga, onde pareciam ter sido riscadas, a fogo, sete letras: L E S V T A Z. Sete feias cicatrizes que ele acariciava como quem corre lentamente os dedos, em adoração, sobre a pele da mulher amada.
- O que quer dizer isso? – talvez eu não devesse ter dito “isso”, e só espero que a voz tenha saído com um tom de espanto, apenas espanto, ou quem sabe até estranhamento e desconforto. Mas eu não queria tê-los demonstrado, já que aquelas deveriam ser as tais marcas sobre as quais ele falava, as que não incomodavam, as que ele vestia com a mesma naturalidade com que eu envergava a minha.
- Basta saber sobre a primeira letra, de Lorelei – disse.
Entristeceu-se de repente, como se tivesse sido coberto por uma enorme nuvem prestes a chover. Saiu caminhando como os meninos, não dando a mínima importância à minha curiosidade, à minha surpresa. Já ia longe quando lhe gritei, perguntando como se chamava. Parou de frente para o mar, ergueu os braços e berrou bem alto o próprio nome: Zé.
E você, que nome terá? Se eu soubesse, pelo menos poderia ser mais fácil nunca mais me confundir.

4 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

"E você, que nome terá? Se eu soubesse, pelo menos poderia ser mais fácil nunca mais me confundir."
E há como não se confundir? :).
Essa idéia de por pedaços do livro é ótima, e quanto a ser grande, se for bom a gente lê com o maior gosto, viu?
Beijos.

2/06/2006 07:35:00 PM  
Blogger Manoel Carlos said...

Um pouco longo para blogue, mas agradável o suficiente para ler sem interrupção.

2/07/2006 08:32:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda Pois é, como dar nome? Ás vezes achoq ue acredito no choro da bananeira...;-)

Manoel Carlos, obrigada por ler. ;-)

Beijos,
Ana

2/07/2006 07:57:00 PM  
Blogger Daniel said...

Doido....

2/01/2016 04:52:00 PM  

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