Confissão #23

Confesso que sou pelos extremos: não curto muito nada morno, nem pastoso, nem talvez etc...

Receita I

Afofei claras em neve
Delicadamente incorporei gemas, para amarelar
Agreguei açúcar mascavo, leite, manteiga,
Gotas de essências, especiarias de além-mar
Um cálice de conhaque
Nozes displicentemente picadas
Envolvi tudo em fermento
Uma pitada de sal e farinha de trigo peneiradas
Mexi a massa com carinho
Quase um tango, dois-pra-lá-dois-pra-cá
Raspando borda da tigela
E lambendo os dedos pra experimentar
Não esqueci um detalhe sequer
Untei a forma, polvilhei, deixei a massa descansar
Aqueci o forno, despejei com carinho
E coloquei tudo pra assar
Para o recheio, usei mais gemas
Leite condensado, leite de coco, coco ralado,
Manteiga, nozes picadas em pedacinhos
Fogo até engrossar e, para esfriar, deixei de lado
Desliguei o forno, e mais 15 minutos lá dentro
Para o bolo não inverter
Saiu dourado, cheiroso, macio, bojudo
Cortei em duas camadas, besuntei com o recheio
Tornei a montar
Em banho-maria, coloquei pra aquecer
Pedaços de chocolate, raspas de bem-querer
Texturei com creme de leite
Derramei por cima do bolo, decorei com nozes inteiras
E me sentei pra esperar.

E então ela chegou. Abri a porta, desconfiada. Era a primeira vez que nos víamos assim, tão de perto. Ela, com certeza, nunca tinha ouvido falar de mim. Eu desconfiava que ela existia, mas não tinha certeza. Sentamo-nos à mesa com a formalidade de estranhas: o silêncio da falta de assunto, o desconforto que nos levou a falar do tempo, a trocar elogios por pura educação. Dispus à mesa o bule com água quente e as diversas ervas para chá. "Leite?", perguntei. "Não, vai estragar o sabor".

Servi o bolo, que ela comeu entremeado de visível prazer. Repetiu, "de pura gula", fez questão de frisar. Experimentamos os chás e logo já estávamos menos distantes, quase conhecidas. Hesitei quando ela, depois de misturar várias ervas no infusor, me ofereceu da própria xícara. “Experimente, e se você gostar, fazemos mais. Só que aí será diferente. Este aqui é o único que vai ficar com o mesmo gosto deste aqui. Nenhum outro". Repetimos, e comemos mais bolo, e conversamos, e bebemos mais chás que nunca mais beberíamos iguais. Então já éramos quase amigas. E quando farta e real, ela se preparava para ir embora, e eu querendo que ficasse mais tempo, arrisco dizer que já éramos quase comadres. Ela então me falou:

- Veja bem, é só sugestão. Sabe aquele canto vazio, de frente pra porta? Eu colocaria ali uma poltrona de couro macio. Nova não. Usada. Daquelas que trazem moldada a lembrança de outros corpos, acostumadas ao cansaço deles e sabedora de seus confortos. Jogaria sobre ela umas almofadas de encaixe perfeito para o vão das costas, a curva da nuca e o apoio dos braços. Ao lado, eu conservaria sempre uma manta de lãzinha, caso surgisse um frio súbito nos pés. Deixaria a porta sempre aberta, escancararia o portão. Nas horas de fazer nada, eu me sentaria e me deixaria embalar pela vida que passa lá fora.

Se eu fosse você, ainda na sala, ao invés de quadros teria mais janelas. E em todas elas, almofadas para amaciar o contato dos cotovelos. E eu me colocaria nelas, uma a cada dia, uma para cada momento. Janela-olhando-a-chuva-cair, Janela-com-pássaro-em-seu-vão, Janela-à-espera-de-um-namorado, Janela-mirando-o-horizonte, Janela-com-pôr-do-sol-no-seu-encalço... Não teria cortinas e, se por acaso entrasse casa adentro um pássaro ou uma borboleta, um gato sem raça ou um cão vira-lata qualquer, eu pararia tudo o mais que estivesse fazendo. É visita. Ofereceria um gole de leite, um mexido, alpiste, flores e tudo que pudesse agradar. E então, quando então fosse embora, eu saberia que talvez pudesse voltar.

É também apenas sugestão, mas eu ainda teria muitas flores. Naturais. Em grandes e confortáveis vasos de barro, que conservam a água muito mais fresca. E elas seriam de todas as cores, tamanhos e variedades. Mas nunca, preste atenção, nunca mesmo, eu teria coragem de empunhar uma tesoura contra elas. De manhã bem cedinho, antes de o sol se enfezar, eu iria lá no jardim e pegaria apenas aquelas que a própria natureza tratou de quebrar um caule ou desenterrar uma raiz.

Pintaria as paredes, talvez de verde, para emoldurá-las como se fossem um grande gramado vertical. Teria também tapetes, muitos tapetes. De sisal, fibra de bananeira e outras cerdas naturais. E na porta, dando as boas-vindas, um tapete colorido, especial. Para que quem aqui chegasse, ao entrar se sentisse intimidado e deixasse do lado de fora o sem graça das existências sem cor. Tiraria as luminárias e ficaria de plantão, observando o que faz a noite escura para acender tantos vaga-lumes. Até aprender a fazer também.

Aqui no quarto eu pouco mudaria. Talvez mais travesseiros nesta cama, para dormir abraçada. E durante o dia estenderia sobre ela uma colcha de retalhos, daquelas feitas por diversas mãos ao mesmo tempo. Mãos que, enquanto vão cosendo, tecem com as vozes lindas estórias entrelaçadas. Quanto ao espelho, apenas me olharia nele com os dois pés em cima desse tapete, tá vendo aqui? Um pé em cada uma dessas marcar. Sempre. Pra ficar no mesmo lugar e me mirar na mesma altura, encaixando direitinho meu sorriso, mesmo que não tivesse vontade, no que eu desenharia no espelho com batom de cor bem alegre.

E essa cozinha... Bem, é uma opinião só minha. Mas sabe esta parede atrás do fogão? Que tal uma janela de fora a fora, bem ampla, e que fosse do teto até uns vinte centímetros do chão? E do lado de fora, sempre ao alcance da mão, um canteiro que daria gosto só de olhar: salsinha, cebola, pimenta, coentro, manjericão, hortelã, sálvia, orégano, mostarda, estragão, alecrim, tomilho, manjerona, champignon...

Sobre a mesa uma gamela velha, destas com a madeira expondo rugas sobre os veios. Forrada de pano bordado em ponto-cruz, ela receberia as frutas e os legumes da estação, apanhados no quintal. Ainda sobre a mesa, eu colocaria uma bandeja com uma talha de água sempre fresca, e uma linda caneca esmaltada. Abriria a cristaleira, para a louça respirar. Nas minhas receitas, colher só se fosse de pau, mas não qualquer uma. Teria que ser uma muito antiga, muito usada, que trouxesse incorporados à madeira os gostos e os cheiros de vários pratos, de vários sabores, de vários prazeres. Colheres deste tipo são dignas de panelas de barro, ou daquelas pretas de ferro, ou então das de delicado revestimento esmaltado.

Outra coisa: teria o fogão sempre aceso, e sobre ele, água fervente para um chá, um bule de café sempre quentinho, colhido, torrado e moído na hora de passar. Mas atenção: seria primordial usar coador de pano. E sempre também um tacho fumegante de volátil e embriagante sabor, que poderia ser um doce de corte, uma geléia, uma compota ou então um licor.

No alto da estante, sobre passadeiras de renda recortadas em papel, dentro daquelas latas antigas: pão caseiro, bolo, biscoito, rosca, coisinhas pra petiscar. Sempre à mão, um queijo fresco, desses que a gente vai tirando lascas com a faca e comendo misturado com conversa, sem sentir o tempo passar.

E então, aqui nesta cozinha, eu poria mais cadeiras, fecharia a sala de visitas e traria todas as visitas pra cá. Para as ocasiões especiais, teria por aí umas velas, uns incensos, umas toalhas com rico barrado filê. E sabe, ainda poderia sonhar: esta porta que dá pro quintal, eu botava abaixo em dois tempos. Deixaria só uma tela bem fininha, sem tranca, só tramela, pendurava uma cortina de contas e convidava o sol pro almoço e a lua pro jantar.

Ah... Eu também guardaria, espalhados por aí, uns velhos sacos de pão. Abriria uma das laterais e, se encontrasse migalhas, jogaria aí mesmo pelo chão, para acostumar mal os passarinhos: eles tomam querência. Mas voltando ao saco, seria só desdobrar e alisar com a palma da mão, bem lá onde estaria escrito "Volte sempre, agradecemos a preferência". Teria sempre junto, uns lápis, para na hora não ter que procurar. E usaria o verso, então, para quem sabe, poetar.

O quintal, eu deixaria assim mesmo, como está. Só falta uma rede preguiçosa e espaçosa, pendurada ali naquela mangueira e naquele pessegueiro na ponta de cá. Talvez mais umas mudas de frutas, sei lá, é só sugestão. Veja bem, não quero me intrometer e nem mudar nada na sua casa não.

Agora, sabe esta varanda aqui na frente? Eu traria os livros pra cá. Deu uma coisa vê-los lá na estante, presos entre as prateleiras... É só palpite, coisa minha. Mas aprisionar as histórias assim? Sei não, acho que não está certo. Eu os colocaria ali, naquela parede, a olhar pro jardim. Não acha que eles ficariam contentes? Vai calhar todas as histórias teriam finais felizes... A varanda é grande. O sol, a chuva e a poeira vão respeitar. No mais, teria aqui apenas espreguiçadeiras. Não demasiadamente confortáveis que me fizessem adormecer, mas o suficiente para me deixarem ficar quando não dá para abandonar um livro antes de saber como ele vai terminar.

É isso. Talvez eu gostasse de uma casa assim. Mas são coisas minhas, deixa pra lá. Já vou indo, queria a receita do bolo. Pode me dar?

Passei a minha receita. Tomei nota da dela. Segui à risca e a convidei para voltar. Ela foi ficando, ficando, ficando... E hoje já somos quase uma só: eu e essa tal Felicidade.


Receita II

Faz tempo que sinto esta Tristeza se instalando. Tentei expulsá-la mas se mostrou cada vez mais resistente, como um vírus mutante. Traçando elos, estabelecendo novas conexões, fazendo parcerias com meus outros sentimentos já arraigados. Que remédio, então, senão conviver com ela? De início, tentei conciliar. Fiz um traço imaginário:

- Daqui você não passa! Daqui pra cá é meu, só meu. Fica com este espaço aí que você já me roubou.

Ela me desafiava. Era só algum outro sentimento tentar se mostrar mais forte para que ela se achegasse e o dominasse também. Zombava muito de mim, dizendo que eu não aguentaria mais ficar sem ela, que já estava acostumada à sua companhia. Eu queria revidar, mas seria pior, então me segurei e deixei que ela ficasse falando sozinha até se cansar. Isto aconteceu depois de dias, quando eu já estava quase enlouquecendo com aquela voz insistente repetindo que não iria embora, que estava muito bem instalada dentro de mim.

Eu a observava constantemente, com o canto do olho, claro, para não dar muito na vista que me interessava o que estava acontecendo com ela. Ela vinha até o limite do território que eu lhe destinara e ficava sentada sobre a linha por horas e horas, ameaçava avançar e recuava, repentinamente, como quem coloca desavisadamente o dedo em água gelada.

Observando-a agir todos os dias, comecei a admirá-la. Era incontestável a habilidade com que ela me debilitava. Acho que pressentia qualquer sinal de sorriso, ou otimismo, ou euforia, ou o fosse que pudesse ameaçá-la. Era eu levantar e ela já se punha a postos. Percebi também que ela me observava e, de certa forma, por alguma contagem de tempo que não consegui entender, ela sabia os dias com maior probabilidade de eu me sentir um pouquinho feliz. Nesses dias ela parecia mais atenta e mais dissimulada. Chegava até a cantarolar, sorrir, pular, cantar, imitando outros sentimentos. Nesses dias nem se aproximava da nossa linha imaginária. Arrumava seu território e puxava conversa amigável com meus outros habitantes. Faziam festas até, talvez para eu não sentir falta de diversão, de risos, de dança e de música.

O pior é que funcionava, porque, ao prestar atenção a tudo que Dona Tristeza aprontava, eu não tinha tempo para mais nada. A não ser vigiá-la, tentar prever seus passos, tentar saber o que queria de mim. Numa manhã seguinte a uma destas festas, preocupei-me de verdade. Para lá, do lado dela, tinham passado todas as minhas boas lembranças, os meus sonhos, as minhas vontades, as minhas esperanças, as ambições e muitas outras coisas boas que eu nem mais lembrava que existiam. Estavam todos lá, entregues, alguns por ressaca, outros por comodismo, outros por, há tanto tempo inativos, não saberem mais o que fazer do lado de cá.

Juro que não tive forças. Apaguei a linha e me juntei a ela também. E foi assim que tudo começou, eu e esta minha tristeza. Nunca tive melhor companhia, mais presente, mais sincera, mais forte, mais ao meu lado pro que der e vier. Quem nos vê juntas por aí diz que nascemos assim, uma pra outra. Acho que é mesmo, pois nem um riso forçado surge no meu rosto quando me lembro da vida antes de ela se instalar.

*****
Dois textos antigos, escritos em momentos muito diferentes, requentados e reunidos.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Ana,
lindos os dois textos. Como é bom reler. Beijos.

2/03/2006 10:04:00 PM  
Anonymous Sonia said...

Apetitosa sua receita de Felicidade. Mas há que experimentar um pouco a Tristeza, não é?

2/04/2006 12:02:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Mãe, fico feliz que você goste de reler. Lembra quando media, ao longe, meu estado de espírito pelos textos que eu publicava no Udigrudi? hehehe

Sônia, um acentua o sabor do outro, não é?

Beijos,

2/04/2006 05:02:00 PM  

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