Confissão #9

De vez em quando eu adoto algumas poesias como se fossem oráculos ou patuás. Faço todo um ritual, lendo em voz alta, copiando com letra caprichada, prestando muito atenção a cada palavra dita ou omitida, a cada possível significado, e depois guardo na carteira até que a poesia se cumpra ou que seja urgente substituí-la. Os/as poetas que mais me tocam são portugueses/as, e a primeira poesia que carreguei durante muito tempo foi do Eugénio de Andrade, falecido no ano passado. Um escritor português, ao ver o descaso que eu tinha com o que escrevia, não revisando ou reescrevendo nada, me disse "assim vais magoá-los", referindo-se aos textos e à importância na escolha das palavras certas, e me mandou:


AS PALAVRAS

Eugénio de Andrade

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Outro poema maravilhoso no qual ele fala sobre as palavras é O sal da língua. Não confesso quais poemas andam comigo hoje, mas estes aqui, também dele, entrariam na disputa:


Os amantes sem dinheiro
Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

...................................

Urgentemente
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


********
Mais poesias de Eugénio de Andrade Aqui. Vale a pena.

6 Comments:

Blogger Milton said...

Sou um visitante contumaz e silencioso. Como talvez isto seja até falta de educação, me apresento agora como um admirador dos poetas portugueses e mestre no cultivo de patuás literários.

Achei muita coincidência para deixar em branco.

Beijo.

1/19/2006 09:38:00 AM  
Blogger Milton said...

Agora me dei conta! Vinha aqui sempre através do link que havia (há) no Idelber. Só que o blog era outro, não?

1/19/2006 09:41:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Milton,
Poesia portuguêsa é o que há. E na forma de patuás literários, poderosíssima se recitada como mantras. Boto a maior fé. ;-)
Sim, tem link lá no Idelber, e tive um blog temporário, do Chile.
Beijos e seja bem-vindo,

1/19/2006 01:27:00 PM  
Blogger Milton said...

Não pude me impedir de também fazer meu currículo...

1/19/2006 03:16:00 PM  
Blogger Claudio Costa said...

É isso: in principio erat Verbum ...

1/19/2006 09:06:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Cláudio, e a luz se fez...
Beijos,
Ana

1/24/2006 01:21:00 PM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home