Confissão #8

O texto abaixo também é antigo. Foi escrito depois de uma overdose de leitura de Clarice Lispector, portanto, pode até ter alguma idéia que não é minha, mas dela, já não me lembro mais. Mexendo nos arquivos do Udigrudi, encontrei muitas coisas de que ainda gosto, embora estejam mal escritas. Eu não revisava texto algum, e confesso que é ótimo saber que hoje já tomo muito mais cuidado com o que escrevo. Leio, releio, corto, acrescento, leio de novo, mudo, e vou aprendendo. E isso é bom.


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Sobre as Pessoas, as Coisas e os Bichos

Posso te fazer uma pergunta? É que tenho uma curiosidade latejante. Tudo que é Pessoa, Coisa ou Bicho me interessa. Acho que tudo que existe está aí. Às vezes trocando de papéis: uma Pessoa pode virar Coisa, um Bicho pode virar Pessoa, uma Coisa pode virar Bicho. É tudo feito da mesma essência, o que molda é a atitude. Só as palavras não são moldadas, e por isso concordo quando o Manoel de Barros (ou seria a Clarice Lispector?) diz que elas não surgiram para serem faladas, mas escritas, pois apenas a margem do papel ou da tela suportam sua fluidez. Faladas, elas evaporam no ar e deixam de existir no exato momento em que são proferidas, como quem morre sem ter plantado uma árvore (Coisa), tido um filho (Pessoa) ou escrito um livro (Bicho). Livro não é Bicho? É sim. Você precisa aprender sua linguagem antes de se comunicar com ele, senão ele fica daqui, você daí... Um olhando pro outro... Até um ou outro dar o bote ou sair correndo. Livro é um Bicho sim. Já viu como um poema é passarinho do mato? Cantor, arredio, arisco... E um romance, então!? É um gato, cheio de artimanhas. Ficção científica? Centopéia. Terror? Aranha. Crônica? Lebre. Ensaio? Coruja. Biografia? Cobra. Conto? Macaco. Fala outro que eu digo o Bicho que é. Mudei de idéia: poesia é água viva. Água Viva é Bicho? Sei lá, deve ser, transparente, fascinante, e como queima. Por dias a fio me arde um bom poema. Vou te contar um segredo: tenho um monte de Bichos dentro de mim. Queimando. Aliás, acho que sou mais Bicho que Pessoa. E quando encontro Pessoa que também virou Bicho, entro no cio. Copulo comigo mesma, como as plantas, e com o despudor dos Bichos (veja bem, aqui não cabem Pessoas, só Coisas e Bichos). E então vou parindo, parindo, parindo, parindo; até a exaustão. Depois eu como a placenta, que é para alimentar os outros Bichos que ainda ficaram lá dentro, se formando. Uma ou outra cria eu também como, das que não iam vingar mesmo. Bicho é assim, só cuida da cria que se parece com ele, que ele aprova. Sabe do que eu mais gosto em ser Bicho? É que sendo Bicho eu sou por instinto, não existe tempo-espaço entre o que penso, sinto e faço. O ato já é meu pensamento, não precisa de passado, presente ou futuro. E do que eu menos gosto é que existem cada vez menos Bichos. Sendo Bicho eu também não preciso me reinventar; tudo o que um Bicho faz ele já nasce sabendo, outro Bicho já fez. Se um Bicho faz algo diferente, muda de categoria, evolui, vira espécie. Gosto disso, principalmente por não ser uma atitude provocada. Bicho só muda por erro genético, por acidente, por descuido da natureza. Acho que você já sabe, mas vou te contar também o que eu queria ser mesmo, de verdade. Era não ser Bicho, nem Coisa, nem Pessoa, nem nada. Existir como o que não existe. Já imaginou? Não, não imagine. Porque assim que você imaginar passa a existir, e então já não posso mais ser isso aí e preciso desinventar outro pensamento. Será que existe o não-pensamento? Eu queria tanto ser algo que contivesse tudo o que não existe... Seria muito maior e mais bonito do que tudo que já existe. Eu ainda não te falei do acho sobre ser Coisa. Ser Coisa também deve ser bom, mas é claro que não melhor do que ser Bicho, mas infinitamente melhor do que ser Pessoa. Como o Bicho, a Coisa também já é, não precisa aprender, não se desvirtua e nem se distorce como a Pessoa. Mas também não evolui sozinha, como o Bicho. Não muda de espécie, a não ser que a Pessoa queira. Pensando bem não quero ser Coisa. A Pessoa já classificou as Coisas em todas as espécies existentes, pelo menos as que conheço, e que são muitas. Todas classificadas, rotuladas, arranjadas e divididas. Eu tenho um baú onde guardo Coisas. Coisas minhas, que ninguém conhece. Talvez um dia eu te mostre. Mas não as inventei, já digo antes para você não se decepcionar. Elas já estavam por aí. Vai ver você também as tem, escondidas como eu, sei lá. É que os Bichos têm a capacidade de ver as Coisas de uma maneira diferente. E isso ninguém me contou, eu vi, com estes olhos de Bicho que enxergam no escuro. Onde é que estávamos mesmo? Já nem sei mais, nem sei o motivo de ter te falado tudo isso. Acho que no fundo eu só queria te fazer uma pergunta. Tá vendo, infelizmente eu ainda tenho muito de Pessoa. Fico rodeando, farejando, ciscando o terreno. Bicho não agiria assim, já teria perguntado. Ou melhor, já teria reconhecido: você é Bicho também?

Ana Maria Gonçalves – São Paulo, 2001

2 Comments:

Blogger Claudio Costa said...

Pessoa, coisa, bicho. Há, mesmo, pessoas que confundem tudo. Se cada um de nós for uma pessoa inteira, então tudo vai bem, principalmente porque tratará os outros igualmente como pessoa. Mas que os bichos têm muito a nos ensinar, ah!, isso têm. Abraços a você e a ele.

1/18/2006 10:54:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Pois é, Cláudio, adoro aprender com e observar esses bichos, internos ou não à nossa natureza. O abraço será dado.
Beijos,
Ana

1/19/2006 01:53:00 AM  

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