Confissão #6

É grande a tentação de republicar aqui muitos posts do meu velho blog, pois tenho quase certeza de que a maioria das pessoas que os lerão agora, não leram antigamente. Digo antigamente porque sei o quanto é efêmera a memória virtual. Aqui tudo envelhece muito mais rapidamente do que em qualquer outra mídia. E confesso que às vezes vou cair em tentação, como agora, com esse conto pelo qual tenho especial carinho.

Nina

Nina se sentou ao chão, na minha frente, esfregou os olhinhos afastando a franja encaracolada e estreitou a boneca junto ao peito. Depois de alguns segundos a olhar meu silêncio, perguntou:

- É verdade então, mamãe? Fala...

O rostinho sério, a voz carregada de pena, como a de quando encontrava algum bichinho ferido em suas incursões pelo quintal. Era assim que Nina falava comigo, como quem fala a um pásssaro de asa quebrada, me deiando a esperar que também corresse delicadamente os dedinhos sobre a minha cabeça.

- Pode dizer, mamãe. É verdade então?

Nina tinha com cinco anos. Havia muito tempo que eu queria contar a história, antes que ela deixasse de entender. Por mim, nunca deixaria. Mas o mundo nem sempre tem a complacência de uma mãe.

- Quer mesmo saber, filha?

Sempre tive muito cuidado com tudo que dizia a Nina. Desde pequena, era somente a ela que eu tinha para me ouvir os desabafos. Sempre foi uma criança especial, os olhos pareciam compreender o que eu dizia. E me olhavam neutros. Nada respondia, nem quando, com pouco mais de um ano de idade, começou a falar. Não pronunciando uma palavra e outra, como toda criança. Seu silêncio de até então, que me preocupava como uma doença, foi quebrado com uma frase inteira. Com todos os sujeitos, verbos, substantivos e adjetivos a que tinha direito. Eu mesma não estranhei muito, pois de certa forma sempre estabelecemos um tipo de diálogo. Nina me bastava como amiga. Ouvia tudo em silêncio, às vezes fingindo displicência, enquanto brincava. Tinha um modo especial de parecer presente e ausente ao mesmo tempo, precisa em me brindar as pausas do monólogo com sorrisos deliciosos e reconfortantes. Como naquele momento.

- Eu o conheci em uma festa, Nina. Nunca fui atrás de crendices, simpatias ou feitiços, mas, naquela noite... Foi numa festa de Santo Antônio, a cidade inteira estava na praça, tinha aquelas barraquinhas de quentão, pipoca, algodão doce...

- Tinha cachorro quente?

- Tinha, Nina. Cachorro quente, maçã do amor e a barraquinha do santo. Diziam que a moça que quisesse se casar deveria comprar uma imagem de Santo Antônio e pendurar, de cabeça para baixo, de castigo, até o santo atender o pedido.

Nina sorriu, talvez pelo jeito engraçado de deixar o santo de castigo. Ela também tinha os dela. Mas não se imaginava pendurada de cabeça para baixo, como experimentou fazer com a boneca agora.

- E você queria se casar, mamãe?

- Não sei, filha, mas minhas minhas amigas estavam fazendo e eu fiz também.

- Eu queria que você...

Ela não completou a frase. Não precisava, sempre me perguntava se eu não iria me casar. E sabia que a pergunta me deixava um pouco triste. Devia estar pensando em alguma outra coisa para dizer.

- ...que você .. que você... é...

- Que eu te contasse a história toda, né? - resolvi ajudá-la.

Então o silêncio foi de Nina. Ela nunca mentia. As verdades mais duras, para mim ou para ela, eram ditas no mais completo silêncio.

- Eu tinha acabado de amarrar o santo de cabeça para baixo e estava ouvindo minhas amigas fazerem a oração de Santo Antônio. Não sei como, o barbante do meu santo desamarrou e ele caiu. Quando me abaixei para pegar, um moço se agachou do meu lado e perguntou se eu queria ajuda.

- Você não deve ter amarrado direito, né mãe?

- É, deve ser.

- E ele, como ele era? Era bonito? O moço?

- Bonito, filha, muito bonito. E tinha uma voz linda. Usava terno, sapato brilhando de lustrado e um chapéu na cabeça.

- E o que ele te falou?

Eu nunca consegui apagar aquela imagem da cabeça. Ele ao meu lado, os dedos longos e macios fazendo carinho nos meus, e o rosto próximo, muito próximo. Tinha uma voz rouca e macia:

- A princesa precisa de ajuda?

Eu não consegui responder. Senti o dorso da mão queimando no contato com a dele. Só tive vontade de ser beijada, e acho que até cheguei a fechar os olhos. Talvez tenha oferecido os lábios, que ele, elegantemente, deve ter prometido deixar para mais tarde. Sorri e corei em resposta.

- A moça acredita em promessas para Santo Antônio? Tanta beleza assim, nem precisa. Por que não deixa o santo aí e me acompanha numa dança?

Eu não sabia o que esquentava mais. A fogueira crepitando no meio da praça, em volta da qual eu rodopiava nos braços dele, ou o contato com seu corpo, suas mão nas minhas costas, puxando para mais perto.

- Mãe, tá me ouvindo? O que mais ele falou?

A voz de Nina parecia distante, embaralhada aos sons da festa, como naquela noite. Eu nada ouvia além da respiração dele, junto ao meu ouvido. O coração batendo nas têmporas, a festa ao longe.

- Bem, Nina, ele me convidou para dançar.

- E ele dançava bem?

- Dançava, muito bem. Dançamos a noite inteira.

- E qual era o nome dele?

- Não sei, Nina. Antônio, talvez...

- Qual é o nome da moça?

- Luana.

- Nome bonito, quase tão bonito quanto a dona – ele disse, enquanto com uma das mãos levantou carinhosamente o meu queixo, mirando bem dentro dos meus olhos, como se tivesse perdido alguma coisa ali. Ele tinha lindos olhos que, debaixo da aba do chapéu e iluminados pela fogueira pareciam soltar faísca. Faíscas muito azuis que quando iam chegando perto de mim ficavam amarelas, alaranjadas e, por fim, vermelho fogo.

- E o seu? – perguntei.

- Que nome a moça acha mais bonito?

Pensei em vários nomes bonitos, mas nenhum tão bonito quanto ele. Nenhum parecia combinar com ele, que mais parecia um santo...

- Antônio...

- O nome do santo?

- É, o moço parece um santo de tão...

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Quase terminei a frase. Morri de vergonha. Com certeza ele deve ter imaginado o que eu estava pensando.

- O moço é daqui mesmo? – disfarcei.

- Sou daqui, dali... Corro mundo, moça. Só paro quando vejo uma princesa assim linda como você.

- Você não lembra o nome dele, mãe?

- Lembro, era Antônio mesmo, Nina. Mas isso não importa, importa que dançamos e conversamos a noite inteira. Ele me contou muitas histórias, tinha viajado muito, conhecia um mundo.

- Histórias como essas que você conta pra mim?

-Sim, filha, muitas das histórias que conto para você foi ele quem me contou.

Eu fiquei encantada com as histórias dele. Enquanto dançávamos, contava de mundos distantes, de pessoas e coisas das quais em nunca tinha ouvido falar. Das festas que já tinha freqüentado. E sempre me fazendo um carinho, dizendo que gostaria de ter estado sempre comigo e que, se eu quisesse, um dia me levaria. Chamava-me de princesa, de minha linda; de meu amor quando já estávamos sentados em um banquinho sob a árvore, na beira do rio. Ele havia tirado do bolso um lenço vermelho e forrado o banco para eu me sentar. Enquanto abria o lenço, um cheiro muito bom se soltou dele. Fiquei tonta, louca para me sentar antes que desse vexame, esperando que ele alisasse o lenço com cuidados que nunca ninguém teve comigo.

- Ele era um contador de histórias, mãe?

- Não de verdade. Mas ele sabia muitas, todas muito bonitas.

- O que ele fazia então?

- O que o moço faz, para viajar tanto assim?

Eu já me sentia totalmente à vontade para fazer perguntas. Aliás, eu já me sentia à vontade perto dele. Como se já o conhecesse havia muito tempo. Como se sempre existíssemos, nós dois, e só nós dois, sentados ali naquele tosco tronco em serventia de banco, sob a copa da árvore varada de lua. Havia uma lua linda, que ele disse ter encomendado. E tinha mandado dar nome, para combinar com o meu. E o barulho do rio, como se fosse uma canção de ninar, para combinar com o seu.

Ele não respondeu à pergunta. Talvez tivesse preferido responder à que fiz em silêncio.

- Eu beijo. Quer um?

Passei lentamente a língua sobre os lábios, para refrescá-los, como se soubesse o calor que os dele provocariam. Não sei se ele entendeu como uma resposta. Só sei que me beijou. Abri os olhos para ver se ainda estávamos ali, sobre o banco, sob a árvore. Vi apenas os olhos dele, abertos também, brilhantes, como escamas ao sol.

- Não sei direito, filha. Mas era longe, muito longe.

- Por que você acha que era tão longe?

- Por que ele nunca mais voltou. Deve ter ido para muito longe, não acha?

- Ele falou que ia voltar?

- Falou, quer dizer, acho que falou.

Nina, àquela altura, foi se aninhar no meu colo. Acho que às vezes ela fazia isto para eu não me esquecer quem ali ainda era a mãe. E quando ela vinha assim, brincar de filha, ficava em silêncio, enrolando e desenrolando entre os dedinhos os cachos do meu cabelo. Eu sempre a deixava, até se fartar.

Com a outra mãozinha ergueu a boneca até a altura dos olhos, antes de dizer:

- A Julieta acha que um dia ele ainda vai voltar. Não é, Julieta? – e balançou a cabeça da boneca, em uma resposta afirmativa - Mesmo se estiver muito longe. Vai ver ele está aprendendo mais histórias.

- Moça, deste jeito eu nunca mais vou te deixar.

Sentia meu corpo leve, flutuando, em uma correnteza de palavras formando um rio morno e calmo.

- Ah, princesa, vem comigo, diz que sempre vai vir comigo. Faz amor comigo que eu vou te levar para lugares que você nunca imaginou conhecer.

Não tive mais coragem de abrir os olhos. Ele me livrou da roupa molhada e comecei a queimar, a precisar cada vez mais do contato refrescante com o corpo dele. O rosto, os seios, as pernas, tudo quente demais. E eu o puxava para mais perto, querendo fundir meu corpo ao dele, até me apagar.

- Eu quero ir.

Palpitávamos inteiros no ponto onde éramos um só. Uma luz, uma cegueira que me impedia de abrir os olhos e que me permitia ver e ouvir tudo ao mesmo tempo. Folhas, gotas, frutas, sinos, pássaros, peixes, carne, fogo, ar, ar, ar...

- Mãe, quantos anos ele tinha?

- Não sei, filha. Mas era novo.

- Então ainda deve estar novo e bonito, né?

- Acho que eles não envelhecem.

- Por que boto não envelhece?

- Porque eles nascem de novo, cada vez que saem do rio.

- Então, mesmo quando eu estiver velhinha, meu pai vai estar moço ainda?

- Vai.

- Mãe, será que ele vem me conhecer antes de eu ficar velhinha?

Acordei na margem do rio, com o sol alto. O corpo nu, cansado e feliz, impregnado de ervas em infusão com meu suor. Entre as pernas, o cheiro dele e o lenço escarlate tingido com minha mulherice. Tínhamos selado um pacto. Aqui nunca mais entrou homem algum. Eu não suportaria perder para sempre este cheiro dele. Embora, às vezes, eu arda de novo em desejo. E nesses dias de puro desespero apenas o rio me refresca. É onde eu fico, até sentir os ossos gelados e a pele enrugada.

- Talvez, filha, talvez. E quem sabe eu também não esteja tão velhinha...


Ana Maria Gonçalves – são Paulo, junho de 2001

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