Confissão #3

Nos últimos meses estudei bastante sobre o suicídio, para compor uma personagem de um livro ainda pela metade. Depois, impressionei-me com o suicídio do noivo da Gabriela Mistral, que afetou profundamente o resto de sua vida. Ultimamente, acompanho com interesse o caso do general brasileiro morto no Haiti. O suicídio, como tema e como ato, tem uma relação muito próxima com as artes, principalmente com a literatura.
Há grandes personagens suicidas e grandes escritores que, num ato extremado, com um ponto final, eliminaram de si o mundo inteiro. Confesso que ainda quero voltar ao tema, mas hoje deixo um conto meu publicado em Portugal, no livro “As segundas palavras da Tribo”.


Um dia antes do outro

Lucila subiu a escada que levava ao segundo andar, divertindo-se ao ouvir o eco dos próprios passos. Lá em cima, resolveu repetir pela última vez uma das suas diversões preferidas, e desceu escorregando pelo corrimão. Antes, olhou pela janela e viu o pai lá fora, acabando de ajeitar as malas no carro. Ao lado dele, o irmão tentava ser útil. Olhou ao redor e nem sinal da mãe, a senhora de passos silenciosos e furtivos. Prendeu a respiração para escutar melhor, e nada, nenhum sinal de vida a não ser dentro dela mesma. Passou uma das pernas sobre a madeira e abandou o corpo à delícia de deslizar. Daquela vez, com maior delícia ainda, porque era a última, e porque sabia que lá embaixo não estaria mais o tapete que dificultava o equilíbrio quando os pés atingiam o chão. Desceu uma segunda vez para despedir bem despedido, e até mesmo to9mando um pouco menos de cuidado para não fazer barulho. Até gritou. Não a plenos pulmões, mas um gritinho de satisfação, que, assim como os passos, ecoaram na sala vazia. Estavam de mudança e levariam a maior parte das coisas; ficavam apenas o sofá “velho demais, nem compensa levar” e a mesa de dez lugares “ grande demais, não vai caber na casa nova. Melhor ficar também”, tinha ouvido a mãe dizer. Subiu novamente a escada, com calma, contando os passos e os degraus, confirmando os números que já sabia de cor.

No andar de cima chamou pela mãe, e como ninguém respondeu, empurrou devagar a porta do quarto. Viu que ela dormia na “cama que precisamos trocar também, não acha?”. Ainda na soleira, voltou a chamá-la, achando que deveria estar cansada por causa da quantidade de trabalho nos últimos dias. Um cansaço de dobrar, embrulhar, encaixotar, etiquetar, jogar fora o que não servia mais e se preocupar com o “cuidado que é louça de família”, para os homens que buscaram a mudança. Lucila então entrou no quarto e se aproximou da cama, com dó de interromper o descanso da mãe, tão linda dormindo, quietinha. Chegou mais perto, sempre chamando, e já quase gritava, com muito medo de que a mãe não quisesse mais acordar. Desceu as escadas correndo para avisar o pai. Mais rápido do que pelo corrimão.


******


Marisa pensou em deixar algo por escrito, pedindo que nunca separassem os filhos. Pelo que conhecia do marido, ele não teria condições de continuar criando-os sozinho, e menina de oito e o menino de seis. Não que dessem trabalho, até já sabiam cuidar um pouco de si mesmos, mas sabia que o marido ficaria abalado e provavelmente se deixaria levar pela conversa de uma das avós. Queria pedir que mantivessem os dois juntos, pois sabia que a mãe tinha preferência por Otavinho, e a sogra por Lucila. Mas não podia deixar recomendações, pedidos de providências, nada. Não sabia como aquela história terminava, e o melhor seria deixar que corresse por si mesma.

Tinha pouco tempo, o mesmo que o marido precisava para abastecer o carro, calibrar pneus, trocar óleo, coisas que se faz antes de viajar. Marisa pediu que ele levasse as crianças, “assim fico mais tranqüila para ajeitar as coisas por aqui”. Já não havia mais o que ajeitar, e tão logo os três saíram, ela tratou de levar a bagagem para a frente da casa. Sabia que o marido, assim que voltasse, primeiro ia ajeitá-la no carro antes de procurar por ela. Talvez precisasse de mais este tempo, e a não ser pela preocupação com as crianças, estava estranhamente tranqüila para alguém que ia lidar com a própria morte. A sensação de que ia fazer o que deve ser feito, e pronto.

Olhou-se pela última vez no espelho do banheiro e viu uma mulher bonita, muito bonita. Jovem ainda. Sempre diziam que ela parecia ter bem menos que os reais trinta e três anos. Como estaria a outra Marisa, a verdadeira? Tinha escolhido um vestido alegre, de fundo azul-escuro com minúsculas florzinhas também azuis, mas de um tom mais claro. De seda, o tecido amoldando-se ao corpo que não denunciava ter gerado dois filhos. Muito menos os seios, salientes, redondos e firmes querendo saltar para fora do decote. Retocou o batom e se olhou longamente, como quem quer guardar uma boa lembrança de alguém que está de partida.

Tinha separado um jogo novo de lençóis, que estendeu cuidadosamente sobre a cama, esticando e alisando o tecido até que não restasse mais uma única ruga. Também azul, para combinar com o vestido. Na bolsa, procurou o diário e o revólver. Este, deixou esperando sobre a cama e foi até o quintal, embebeu o diário em álcool e riscou o fósforo. Esperou que as folhas não passassem de cinzas que o vento ia tratando de levar embora e subiu novamente as escadas. Parou lá em cima e se permitiu experimentar o único momento que não estava planejado: descer as escadas pelo corrimão. Sentou-se à maneira das damas antigas ao cavalo, com as duas pernas para o lado de dentro da escada, e abandonou o corpo. A princípio, com um pouco de medo, com as mãos agarradas à madeira, causando atrito e dando a medida da coragem. Gostou e resolveu se dar mais uma vez este último desejo, sem as mãos a ditar a velocidade. Uma alegria quase infantil apoderou-se dela com um grito de satisfação que ficou em seus ouvidos por alguns segundos, enquanto ecoava pela sala quase vazia.

Marisa entrou no quarto e pegou novamente a bolsa, querendo a carteira. Olhou com ternura a foto dos filhos e do marido, beijando-os pela última vez. Não sabia se tinha sido assim com a outra; a outra Marisa. Pensando nela, apanhou a pequena arma comprada havia algum tempo na loja de antiguidades, “a empunhadura é de madrepérola, e talvez com uma boa limpeza ainda funcione”, e a encostou ao ouvido direito. Sim, ainda funcionava, tinha mandado testar. Sentiu a orelha nua e se lembrou dos brincos sobre a bancada do banheiro. Levantou-se para pegá-los e foi direto para a cama, permanecendo sentada até conseguir encaixa-los no furo. Deitada, alisou novamente o lençol, abriu a roda do vestido e espalhou os longos cabelos sobre o travesseiro. Repuxou levemente os lábios, para que conservassem uma alegria comedida, e certificou-se de estar com os olhos abertos. Achava horrível morrer de olhos abertos, como se a pessoa ainda tentasse conservar imagens deste mundo. Encostou o cano da arma no ouvido e girou-o para a direita e para a esquerda, empurrando-o levemente, até que estivesse bem encaixado. E puxou o gatilho.


*****


Quando menina, achou que o nome não combinava muito bem com ela. Nome de adulta: Marisa. De onde será que a minha havia tirado a idéia de dar um nome assim a uma criança? Teve certeza do desatino no dia em que foi até a casa de Lucila. Tão diferente da dela, tão bonita, decorada com tanto bom gosto... Tão feliz a amiga, a começar pela felicidade de ter a mãe que tinha. “Lucila, já disse para a sua amiguinha que meu nome também é Marisa?”. Passou a freqüentar a casa de Lucila todos os dias, mais para observar a mãe da amiga, a quem aquele nome caía tão bem. Sentia-se intrusa dentro do seu, e queria aprender a ser como a verdadeira dona. Sempre linda, bem vestida e maquiada, com longos cabelos muito bem tratados e um corpo que não parecia ter gerado dois filhos: Lucila, sua mais nova amiga de escola, e Otavinho, dois anos mais novo.

Quando Lucila avisou que se mudariam, uns dois anos depois, sentiu como se lhe fossem interromper um ensinamento importante, vital. Era como se fosse morrer, ou pelo menos não saber mais como viver, o que dava na mesma. “Estamos sempre mudando por causa do trabalho do meu paio. Ele é engenheiro, sabe? Quando acaba uma obra, agente muda”. Sentiu-se perdida por não poder mais continuar aprendendo a se tornar Marisa. Até que se lembrou de vê-la sempre fazendo anotações em um caderno, e passou a insistir com a amiga para que fossem sempre brincar no quarto da mãe, onde mexia em seus vestidos e sapatos, também procurando pelo tal caderno. A procura era dela, claro, a amiga nem desconfiava; e quando conseguiu encontra-lo, aproveitando que todos estavam ocupados com os preparativos da mudança párea o dia seguinte, nem dormiu. E nem por muitas outras noites e seguir, pois era quase impossível abandonar, mesmo durante as horas de sono, tudo que estava escrito. Uma espécie de diário, uma biografia, um Manual de Marisa.

Quando cresceu, procurou namorados nas portas das faculdades de engenharia, também se casou aos vinte anos, também teve Lucila e Otavinho, com dois anos de diferença entre os dois. Também incentivava o marido a se mudar sempre que aparecia trabalho em outra cidade. Também obedecia à mesma rotina, tinha os mesmos gostos, vestia-se do mesmo modo. Até aprendera a tocar piano, mas sem grande dedicação, para ser tão “medíocre, foi isso que meu marido disse ao me ouvir tocar”, leu. Aliás, também fazia um enorme esforço para também apenas “suportar aquele insensível”. Resolveu que também sumiria aos trinta e três anos, no dia de uma mudança, depois da qual nunca mais teve notícias da outra. Desde a véspera já não sabia mais o que fazer, pois as anotações no diário tinham terminado. Não havia mais indicação nenhuma a seguir. Dever cumprido. A sensação era de estar sobrando dentro de si mesma, e não conseguia mais decidir o que fazer com ávida, por conta própria. Saiu e comprou um revólver.

Ana Maria Gonçalves – Salvador, 2002

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Foto: Ana Cristina César

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