Confissão #20

Em 2006 faz 60 anos do lançamento de Sagarana e 60 anos do de Corpo de Baile, hoje dividido em Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão. Um dos meus projetos para esse ano é terminar um livro de contos que homenageiam personagens desses livros. Também faz 50 anos do lançamento de Grande Sertão: Veredas, mas esse era impossível incluir...

Confesso que adoro tentar imitar o estilo de alguns escritores, e Guimarães Rosa é um grande desafio. O texto que vai abaixo foi o primeiro que escrevi pensando no livro e, com o desenvolver das estórias, ele acabou sobrando. Morro de medo de fazer isso e ficar aqui falando sozinha, mas queria lançar um desafio para vocês também: qual é o conto/novela e a personagem em que me inspirei?

Tá bem, vou apelar: o primeiro que deixar a resposta certa na caixa de comentários ganha um livro de presente.

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Mas o mundo não é consumição de Deus? Pois então, Ele é que obra a estória da gente. Com o perdão da heresia: assistiu Ele com condolência? Qual o quê! Eu vivia e gemia, conjuntamente, caladamente, nas duradouras vontades. No breve, só mesmo o diário, como o galo chamar o dia e o sapo se ocupar da noite. Faço anos vesperando, quando quero. Nem fosse possível diferente, em querendo. Vale chorar? O senhor ouça, depois o senhor pense e fale. Mas as cidades estão lá, para amparar o que digo. Nem peço mérito do que não fiz de pensamento firme, orientado. Pergunte aos antigos, que não nomeio por costume, por segredo. Ofícios. Sempre primei, podia ser homem de alguém. Mas de iguais para igual eles se acusam, prazerosos, o senhor assunteie.

De meu mesmo, no antes, dote, tinha eram suspiros e duas mudas do de vestir. Afirmo, reafirmo e confirmo que o senhor nunca ouviu falar: Caminho de Fora. Sei se existe mais não, que no meu viver já era perdido no que tinha sido. Em menino, o pai rememorava placa, vozerio, movimento, serventia daquele lugar de meudeus. Depois foi só pasto de aluguel, o pai vigiava boiada alheia de noite, descansando a comitiva. Mais tarde, ficou só esperando boiada que esbarrou de aparecer, mudados caminhos, mudadas veredas. A vida pelos entremeios. Buscou a mãe, teve os irmãos, teve eu. Nunca que apareceu mais ninguém, a gente vivia das providências, do de fazer. Dos irmão, três já tinham se ido antes de mim, que homem tem as vantagens de escolher destino.

Um Damião apareceu de perdido, pegou as rotas com o pai e se foi, mais três junto dele. Antes, colocou olhos em mim, eu menina, interessada no diferente. A mãe passou café, nem pôs muito caso de eu servir, temia pelos meus fins, mais que eu. Nem sabia do mundo ter tantos caminhos. Nos entendemos os dois, eu e Damião, eu sem saber do que queria nele, pois que a gente acerta também nas ignorâncias, ele sabendo muito bem o que querer em mim. Combinou de se perder na volta e perguntou se eu seguia com ele. Encabecei no afirmativo, sem pensar, sem tomar conhecimento do que podia e não podia. A mãe viu tudo, eu amarrar a trouxa, mas nem se disse ali, para não ter que entrar em perguntação, bem-querente de mim.

Três noites com seus dias vagamos, eu engarupada, muito em mim mesma, ignorante de destino e pouseio. Damião. Aquele propunha prendas e rendas, só com as pupilas; jaboticabais. Eu, mel, serenava, mesmo a palmo e de transverso, na lombeira. Sem saber como o quê, o amor só me pegando, à revelia. Para quem é feio de sorte, a vida se acerta é no revés?

O Damião seguiu viagem depois de me tutelar à Maria dos Ventos: de renome, e o coração tão grande quanto. Fez promessa, disse que voltava brevemente, com dias de poder ficar mais tempo, para consumar comigo. Eu, inocente e desassuntada, não usufruia das regras do lugar. Maria dos Ventos defendia de tudo, explicava, me punha a par das artes, nomeava o amor; o de vender. Eu, alheia, só fazia lavar, passar, varrer, cozer, misturar bebida. Nem servir eu podia, para não atentar juízos. Tivesse o senhor sabido da minha beleza, entendia. Ouviu falar não? Eu, dita XXXXX? Vezesmente ainda pego meu nome em rabos de conversa.

Nunca que eu tendesse, mas, Damião demorando, a vida pedindo urgências, o coração nunca que aquietava. Eu nem sabia, mas tinha minha mulheridade. Fui aprendendo lição de ter juízo, regendo de alisar a vida por fora, querendo não querendo, misturadamente. Era casa de meio se escutar e dobro se entender. Fazia quase ano desde o Damião, e sem recado mandado. Desfiz compromisso de espera, por minha conta e satisfação, mesmo com eias e pois. A Maria dos Ventos gostando, combinou festa pra mim, a freguesia apalavrada da minha inocência, uma dinheirama. Mas ela nunca que querendo forçar, tomar decisão da minha vida. Eu pensava, repensava, e a Maria dos Ventos negociando, prestimosa. Todo dia era véspera. Aconteceu que relanceei um, fui eu mesma: "O senhor se agrada?". Agradei eu e empacotei o coração, que daquelas coisas ele não deve saber.

Era fila que formava, e eu só lá, anfitrioa, negociável, apreciativa, pernas pra lá e dinheiro pra cá, tendo do senhor o perdão de eu nomear o gesto. Sem ofensa, é pra o que eu digo. Mas digo pra que o senhor ponha comparação, pra contar que eu gostava, aprimorava, sabente de mim, do meu valor. O Damião que ficasse somando o que tinha perdido, fosse o caso. Mas não só. Verdadeiro? No fio da faca? Riscadinho mesmo? Eu dedicava gosto. E de novo, sem a ofensa dos propósitos, que o senhor releve o termo mas não o sentido, ai de mim se eu não fosse eu.

Deu-se então o impensável, que de inveja até já perdeu o trono um anjo. Morro Alto de Cima era o nome do lugar, e ainda o é, copiado em tudo pelos de Morro Alto de Baixo. Fio que o senhor já ouviu falar dos Louzeiro? É fama que corre as gerais e os sertões, bem pra lá de léguas do São Francisco. Apois! O Almino era dos de Cima, o Alcebíades, dos de Baixo, pomposos, mandantes, reinóis. Louzeiros, dos de Trás-os-Ventos, se não sabe. Importantes, de colherem ontem o que plantaram hoje. No dito e no feito. No mandado e no pedido. No visto e no escondido. Governa cada um nem quinhentas almas, mas capacidades têm pra mais, separadamente, competindo, brigados que estão. Estiveram, estarão: tem igreja para os decimenses, tem catedral para os debaixanos. E no inverso, rua calçada em uma, chama duas calçadas na outra uma. Aumentou ou diminuiu alma vivente pra governo de um, por cargas do destino, também acontece o mesmo pro outro, os Louzeiros. Só no querer, só no jogo ganho. Nunca tem fim de conta, o senhor saiba.

Mereci preferência dos das tropas, dos passantes, dos curiosos, dos homens que sabiam de mim, nas gerais todas. Não alheie o senhor de saber que o Alcebíades não deixou por menos - soube depois, o Damião, só no olheiro, só no recrutador, de um e de outro, no meio da competição. Não fui a primeira nem a última, e só hoje tenho sarado o dó da lembrança. Mas Deus não governa é no remexer do mundo? De correr o tempo, levando a Maria-dos-Ventos, governo também eu, testamentada, a merecer confiança do Almino.

Tem menina nova servindo os debaixanos, beldade, como poucas. Pudesse eu, soubesse voltar o tempo, fazia par. Mas não se aprende dessas artes, e por isso, vim. Venho de longe, o senhor tranquilize o pensar. O roto protege o rasgado, dou palavra, como dou fé de que longe se fala nessa menina, essa da sua custódia. Vitimada, tenho a certeza do pensar. Alivio a consciência do senhor levando escondida comigo, tenho os meios. Veja bem, o senhor, quem é que te rege a vida, se não a vontade? A mulher nem tinha que tomar satisfação, que soubesse de encantos para prender o homem dela. Ir tirar satisfação com a menina? Deu reparação pro mal destino. Não pensa assim, o senhor, em leis, mais instruído do que a infeliz? A menina só partiu pro defenseio. Fatalidade. O cabo da faca não conhece o dono. Séria lá, centrada, conduzida, no bem fazer de sua profissão. A outra se deu ao ousio. Responseio dela, da menina, caso o senhor feche vistas. Problemas assim, a barbante frouxo é que se ata, pois. Pois?

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Update: dedico esse post à Anna Barbara, amiga querida por quem tenho enorme admiração e carinho e que, como se não bastasse ser professora de latim, está festejando um ano de estadia em Budapeste, para onde foi aprender as delícias do húngaro. Egészségetekre, Anna!

9 Comments:

Blogger Claudio Costa said...

Riobaldo, minha cara! O narrador de sua perplexidade diante do mundo, em Grande Sertão: Veredas. Adoro o Guimarães Rosa, mas estou meio remoto, de tal forma que não passa de um chute. Abraços a você e a Ele.

1/30/2006 06:21:00 PM  
Blogger Idelber said...

Abraço recebido, caro amigo Cláudio. Quanto à adivinhação, acho que Ana lhe dirá que tente de novo....

1/30/2006 06:27:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Cláudio, uma das características que mais adoro nos personagens do Rosa é esse espanto diante do mundo. Acho que é em Noites do sertão que ele diz que a vida vai indo, vai indo, mas também vem vindo, vem vindo... E tudo o que vai e vem ao mesmo tempo é sempre cheio de novidades, não é mesmo? Mas não é Riobaldo, e como dica deixo que é uma referência mais direta, uma personagem feminina de Sagarana ou de Corpo de Baile. Beijos, Ana

Idelber, você foi rápido em vir buscar o abraço. Ganha mais quantos puder levar ;-)

1/30/2006 07:30:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

olha, nao eh pra elogiar nao, mas esse trechinho me enganava... :)

alex castro

1/30/2006 09:06:00 PM  
Blogger Matilda Penna said...

Veja bem a moça Ana Maria sabe que um dia a véia cá soube disso... Se num sabe a moça Ana Maria leia aqui que a véia cá acha que é Corpo de Baile, uma das tias, só que essa véia assisqueceu do nome acertado da tia e do conto de onde veio a moça fogosa... É que isso de saber nomes rosanianos é coisa de quem nasce mineira, já vem no sangue, nas tradiçoes de lá dos morros, a moça bem sabe disso... Eu cá ia ficar aquietada e nem prosear sobre algo meio esquecido, mas como ninguém assuntou acertado, resolvi de pensamento pensado arriscar, o começo da vida de uma das tias, quem sabe? Mas a moça arrepare que tá incompleto esse saber, assim meio torto como coqueiro onde bateu o vento forte... E caso seja mesmo esse o meneio do saber, a moça Ana Maria complete e adesculpa o atrevimento, que atrevimento é assim memo, dá e se mostra, gosta disso esse tal atrevimento...

1/30/2006 09:12:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Alex, não é pra agradecer não, mas obrigada... ;-)

Matilda, só vosmecê mêsss ;-) Você sabe tudo, mulher, esconde o jogo não que esta resposta está muito vaga. Tá parecendo o Riobaldo: "Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém: mas ele quer saber tudo diverso: quer não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa."

Beijos,Ana

1/30/2006 11:08:00 PM  
Blogger Matilda Penna said...

Pois, e não é que Riobaldo tinha razão?
Beijos, :).

1/31/2006 07:12:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Visita la meva agenda de Catalunya: Agenda

2/20/2007 10:35:00 AM  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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5/04/2010 06:27:00 PM  

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