Confissão #1

Confesso que sou prolixa, e por isso, mas não só, tenho grande dificuldade em escrever contos. Tentar muito e com muitos é um projeto para 2006. E é com um conto que inicio esse blog que já nasce com o propósito de ser abandonado após cem confissões – modelo copiado dos blogs que a Índigo vem fazendo. Prefiro assim, para não nos cansarmos um do outro e termos um objetivo, embora sem tempo definido. As confissões obedecerão ao tempo determinado por elas, podendo ser diárias, ou semanais, ou mensais, ou a qualquer tempo que lhes der na veneta, livres da tirania de Chronos.
Antes que a prolixidade me domine mais uma vez, vamos ao conto. E por favor, apontem falhas, dêem sugestões, comentem, reescrevam. Tenho muita vontade de fazer deste espaço um boteco para conversar muito sobre literatura e assuntos correlatos ou confessáveis.
E que venha um excelente 2006 para todos nós, puxando muitas coisas boas, nem que sejam amarradas a laço...

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Virar uma esquina, cruzar uma linha


Para Idelber Avelar



Devia ser quatro horas da tarde, mas posso estar enganada.

- Eu já te falei que não tem nada lá. – ele repetiu a frase tantas vezes dita desde que nos conhecemos e pedi que me levasse à esquina da Paraisópolis com a Divinópolis.

Eu sei da importância efêmera de alguns lugares, mas também da capacidade que eles têm de atrair acontecimentos. A vida na Belo Horizonte que ele chama de cidade-véu, muito mais do que por trás das fachadas que escondem o que deve ser recebido como revelação, e não como mero presente, esconde-se por trás do acaso. E há dias mais propícios ao acaso, como há horas mais propícias à loucura. Horas que alongam tanto os minutos que eles perdem contato com a superfície relativa do tempo e se arrastam, sibilantes e mortais, rumo a regiões inabitadas pela razão, e de lá às vezes nunca voltam. Quando frente a frente com tais horas, busco em meio a uma sucessão inolvidável de palavras, as que li num diário de uma viajante do século XIX:

É quando chega àquela região chamada pelos marinheiros de brumas opacas, situada quase sobre a Linha do Equador, que a fisionomia de bordo toma um aspecto estranho. Imagine, leitor, um calor opressivo, pesado, enervante e excitante a uma só vez; ali, nem um sopro vem inflar as velas, a água do mar parece óleo; só se consegue dormir um pouco deixando as vigias abertas (...) Aquela temperatura enervante enlouquece a tal ponto que, à noite, muitas vezes acreditei estar sob o poder do haxixe, tanto meu espírito oscilava entre a vigília e o sonho.

Há loucos dias em que as brumas opacas equilibram os pés sobre a Linha do Equador e impulsionam os corpos intangíveis nas direções em que se abre a rosa dos ventos. Em meio à água e ao ar de que são feitas, as brumas não se deixam agarrar, como às âncoras tentam fazer os barcos antes da deriva; e envoltos por elas nos aproximamos perigosa e deliciosamente da linha a ser ultrapassada para atingirmos o lado de lá da loucura.

Expandindo-se a partir da Linha do Equador, as brumas opacas borram mares, descem sobre litorais, avançam em terra firme, deslizam sobre planícies e ignoram as acidentais montanhas solitárias e cordilheiras, para então se confundirem com a poluição das grandes cidades, onde, com sua abrangência tentacular, se concentram em pontos alcançados a esmo ou são atraídas pelas auras daqueles que enlouquecem ou se apaixonam, o que é quase a mesma coisa: propícias à fusão. Ver isso acontecer é um dos dons mantidos apesar do distanciamento da infância, uma recompensa pelo muito que me foi tirado desde então.

Por volta dos dez anos parei de ouvir vozes, mas continuei vendo o que não conseguia descrever. Pouco tempo depois, parei de questionar a ineitável atração que com que tais visões me puxam pela mão e me jogam aos pés de um desses enlouquecidos por destino ou por opção. Eu vejo como as brumas opacas se aproximam dele e, antes de passarem a acompanhá-lo, abrem espaço ao redor de sua existência solitária, por meio de cuidadosa abordagem centrípeta e cadenciada pelo nível do alheamento demonstrado. Cautelosas, para não correrem o risco de ser dissipadas pelo bafo denso e gélido, que eventualmente pudesse escapar de janela aberta em algum recôndito ainda ocupado pela lucidez.

Afastado o perigo, as brumas então o abraçam, e com prazer redobrado se encontram um corpo coberto por diversas camadas de roupas. Cheias de volúpia e gozo, vão se agarrando a cada uma delas, correndo os dedos monadais sobre o pó acumulado nas dobras dos panos, esticando os olhos através das fendas deixadas pela agulha que pregou botões já perdidos, raspando com as unhas velhas nódoas, como se quisessem se esgueirar por entre elas e a trama do tecido, buscando e ao mesmo tempo retardando o encontro com a margem do pano, com o limite do pudor que habita a puidez das golas, dos punhos, dos decotes e das barras. É por ali que as brumas se insinuam, salivando a pele e sedimentando com sal a interação que, como no caso da chama com o objeto incandescente, as torna indissociáveis do corpo possuído. Tenho dúvida se são as brumas que tornam esses corpos etéreos, perdidos para sempre em territórios ocupados por medéias e antígonas, ou se são eles que, inclinados à partida, oferecem-se com a irresistível beleza de certas plantas carnívoras. Eu sinto esses corpos como a um cheiro, um aviso inquestionável da presença das brumas, um apelo desesperado e irônico para que eu me afaste, sob o risco de deixar que minha consciência vagueie sem, contudo, conseguir atravessar o campo magnético que delimita o mundo que eu teria que deixar e o que não lograria alcançar.

O mais perto que cheguei desses protegidos das brumas foi quando tinha por volta de quinze anos e uma vontade quase insuportável de, sem culpas, desaparecer. Naquela época não havia muito o que deixar para trás; o que eu tinha de absolutamente meu eram apenas o vislumbre de sonhos e um daimon que se fazia audível apenas para me cobrar a existência de metas e que convivia comigo feito um parasita, um predador afiando suas garras na superfície sensível e moldável da mulher na qual eu deveria me transformar. Por causa das pontas dessas garras eu ganhava sulcos, que lambia, e sobre os quais deixava escorrer o fel das incertezas que rogava contra o futuro. Quando os segundos cortes cicatrizaram sobre os primeiros e os terceiros sobre os segundos, e percebi que poderia ficar viciada naquela auto-imolação a ponto de não mais querer desenraizar os pés de terras com curtos horizontes, eu soube que era hora de partir. Estava muito perto do mendigo, quase podendo tocá-lo, quase perdendo a vergonha de querer levá-lo para casa e cuidar dele. Havia algo nele que me impelia a querer cortar e pentear seus cabelos, correr uma lâmina no seu rosto sujo de longos pêlos, aparar as sobras de suas unhas, esfregar a pele com esponja macia e espuma cheirosa, prolongar uma carícia feita com toalha de brancura impecável. Ele haveria de ser o “meu mendigo”, e eu tomaria posse do seu corpo para me vingar da tentação de transformar em minha a liberdade dele, que era maior ainda por ele não saber que a possuía. Precisei falar:

- Há quanto tempo vive por aí?

Não tive coragem de repetir a pergunta, sem perceber se ele a tinha escutado ou simplesmente ignorado. Fiquei no meio da rua, sentindo a curiosidade como uma mordida afiada sobre uma dobra mínima de pele; dentes fortes que, a qualquer movimento meu, poderiam romper a frágil membrana que os separava. Se isso acontecesse, cega de dor, eu provavelmente me jogaria sobre o mendigo, agarrando-o por um dos três colarinhos com que ele desafiava um sol sob o qual eu não tinha ousado sair com nada além de um vestido fino e a langerie de malha. Cheguei a antecipar a sensação provocada pelo contato com as roupas ásperas dele, que, de tão sujas, já eram invólucros, casulos, mas fui sacudida pelo arremesso gutural de sua voz:

- A senhora me desculpe, mas estou ocupado.

Espantei-me mais pelo “senhora” do que pelo “ocupado”, e acredito ter vencido a resistência dele ao não perguntar que tipo de ocupação poderia ter um mendigo sentado sozinho por horas a fio sob a marquise de uma loja fechada.

- Estou ocupado, muito ocupado. - ele repetiu, querendo me fisgar com a isca amarrada na ponta daquele anzol que eu teria mordido se não estivesse tão concentrada em também me ocupar do silêncio.

- Já não falei que estou ocupado? – ele se entregou, fazendo gestos impacientes e abrangentes com a mão esquerda enquanto abria a mão direita e me mostrava o carretel de linha vazio: - Tenho que tomar conta de tudo isso...

Vencido, ele precisou me provar que tinha muito a fazer e começou a girar o carretel preso entre o indicador e o polegar, e a desenrolar fiadas invisíveis que lançava sobre tudo que via. Começou devagar, como quem se certifica de que é realmente capaz de fazer o que se propõe, mas, aos poucos, já atirava quase a esmo laçadas certeiras sobre as casas e sobre os carros e as pessoas que passavam. Laçou também gatos, cachorros e pássaros, e se irritou por perder muito tempo com uma mosca irriquieta.

- Preciso guardar tudo isso antes de escurecer, senão some. Já perdi tanta coisa...

E continuou seu trabalho de laçar tijolos aparentes como cicatrizes em pinturas e rebocos de casas; folhas de árvores e flores que um vento súbito tirava para dançar; o relógio e o sino de uma torre de igreja vista por cima dos telhados das casas; lâmpadas ainda apagadas e seus postes; tampas de bueiros e de mundos subterrâneos; lixo espalhado pela rua; um avião que estendeu seu rastro de nuvem a nuvem e ainda nuvens que não conseguiam se decidir por nenhum formato definitivo; manequins de vitrines e suas roupas; um alfinete caído na sarjeta e que se fez notar por uma das últimas lambidas de um sol pálido, com aparentes sinais de cansaço.

Parei de olhar para as coisas que ele laçava e me deixei hipnotizar pelos dedos ágeis que fabricavam a linha e os laços certeiros, e que pareciam não contar apenas com a habilidade adquirida pela experiência, mas também com a previsibilidade das coisas e dos processos estabelecidos pelo toque de um deus, que, olhando para o trabalho do mendigo, eu não teria como negar. Meus olhos só se soltaram de suas mãos quando os senti laçados também, e, como pipas entregues a ventos dóceis, colocados frente a frente com os olhos dele. O que encarei foi um olhar de extremo desespero de quem é obrigado a se ocupar do trabalho de um sísifo sem platéia, sem reconhecimento e sem culpa a expiar. Covarde, diferentemente dele, percebi que não conseguiria sustentar aqueles olhos e muito menos suas consequências. Antes de fugir, ainda o vi preparando mais laçadas para continuar carregando para dentro das brumas opacas tudo o que, exposto à noite, se perderia na rudeza do mundo.

- Não te avisei que não tem nada aqui? – ele tentou confirmar.

Casas. Apenas casas e um bar ocupam a confluência da Paraisópolis com a Divinópolis. Posso estar enganada, mas acho que já era bem mais do que cinco horas. Meus alheamentos costumeiros talvez tenham disfarçado a ausência durante o tempo em que ele se ocupava da leitura de contos e crônicas de Machado de Assis. Estávamos dentro do carro estacionado a cerca de dez metros da esquina.

- Como você se sente quando se apaixona? – perguntei, sabendo que a resposta poderia ser dada apenas com o passar do tempo.

- Sabe quando o corpo se levanta de um mergulho no mar, depois da passagem de uma onda, e sente cócegas?

Eu quis dizer que as cócegas eram provocadas pelas brumas, mas apenas apertei a mão dele, pois acabava de sentir: o cheiro misturado de algas, pó de conchas, areia, sal, sargaço, madeira podre de velhas embarcações naufragadas, carcaças de peixes. E logo depois o deslocamento de ar provocado pela laçada, larga o suficiente para caber nós dois.

- Como não tem nada aqui? Estamos nós e o mendigo...

- Como você sabe? – ele perguntou, depois do tempo que deve ter levado para confirmar a presença imposta às minhas memórias.

- Esqueceu-se de que sou cega?


Ana Maria Gonçalves - BH, 06/01/2005

2 Comments:

Anonymous Lúcia said...

Ana, confesso que achei suas confissões sem querer. Confesso também que foi o conto da Nina e do boto que me prendeu de vez, coisa mais bonita. Só agora vim te dizer isso, porque, lendo de frente pra trás, foi hoje que vi teu pedido de ser comentada, sugerida, etc. Isso não sei se faço, mas confesso que voltarei sempre!

1/23/2006 05:50:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Lucia, seja muito bem-vinda, e perca a timidez, menina.
Beijos,
Ana

1/24/2006 01:22:00 PM  

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