Confissão #18

Há algum tempo colaborei com uma revista portuguesa e algumas vezes me meti a escrever sobre futebol. Esse é um dos textos de que mais gostei:

O futebol e o fim das tampas de relógio

Na Copa do Mundo de 1998, Chico Buarque estava em Paris e escrevia crônicas para dois jornais brasileiros. Chico, como grande poeta e jogador amador que é, me fez gostar de ler sobre futebol. Em uma dessas crônicas ele dizia que, ao contrário de nós, simples mortais, os craques do passado são ainda melhores hoje porque, mesmo tendo pendurado as chuteiras, na permanente edição da nossa memória continuam produzindo lances memoráveis. Tenho pena de não ter nascido a tempo de adquirir esta memória, e tento compô-la através da sensibilidade e da paixão de grandes cronistas. Tenho até escalada uma seleção brasileira de todos os tempos, e não me importa a posição nem a época, porque acho que, como verdadeiros craques, eles jogariam bem em qualquer uma delas: Gilmar, Ademir da Guia, Nilton Santos, Leônidas, Tostão, Falcão, Garrincha, Pelé, Domingos da Guia, Zico e Djalma Santos. Mas meu preferido é Garrincha.

Garrincha que jogou três mundiais, que fez os zagueiros suecos dançarem em 1958, que, com a leveza de uma ave voava para fora da marcação simultânea de oito jogadores, que fazia malabarismos com a bola. Garrincha que fez a torcida gritar “olé” pela primeira vez em um jogo de futebol, e nem era a torcida de seu time, o Botafogo, mas mexicanos que assistiam a uma partida de exibição contra o argentino River Plate. Garrincha que, com suas pernas tortas, escrevia no campo jogadas e dribles desconcertantes que foram traduzidos por Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Morais, entre outros. E que foi assim apresentado por Drummond: Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.

O jornalista e escritor Armando Nogueira também me dá pistas sobre meu time dos sonhos, em frases como Lá vai Pelé com a bola que Deus lhe deu, ou A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus, ou então Domingos da Guia pisava a grama de leve, pra não magoar a semente de sua arte. O que eu acho que estes jogadores tinham em comum era a capacidade de criar, de reinventar o futebol a cada jogada, de se esquecerem que estavam dentro de um estádio e se lembrarem dos amigos das peladas de várzea. Sim, porque é impossível vê-los jogando e não perceber que para eles aquilo não passava de uma brincadeira. Homens viravam meninos e por isso eram insuperáveis, por isso ficavam mais perto da bola, desconheciam a lei da gravidade e voltavam a acreditar em magia. Eram apenas os meninos do Brasil, como tantos outros por este país onde, segundo outro cronista, basta juntar mais de um, uma bola de meia, um coco, uma laranja ou qualquer coisa minimamente redonda, e a diversão está garantida. Meninos a quem não importava se estavam jogando em um campo gramado, ou de areia, ou de terra batida e irregular, ou na lama, e que sabiam segurar e principalmente roubar uma bola. Porque foi assim, com bola roubada, que o brasileiro aprendeu a jogar futebol, esporte que chegou aqui elitista e racista, proibido para pretos, mulatos e brancos pobres.

Os ingleses eram os donos do campo, da bola, das chuteiras e dos uniforme, e armavam torneios de ingleses contra ingleses. Aos brasileiros ficava a honra de buscar e devolver a bola quando algum jogador exagerava na força do chute. De acordo com uma das crônicas do Chico Buarque, um jornal de São Paulo noticiou que, em 1895, confrontavam-se Railway Team e Gas Team, quando huma pellota imprensada entre dous athletas subiu aos céos e foi cahir às mãos de hum assistente. D'improviso, o cidadão seqüestrou a pellota. Metteu-a sob o braço e escafedeu-se no matagal, perseguido por dezenas de crioulos. Foi alcançado ao cabo de meia hora, às margens do rio Ypiranga. E celebrou-se alli, em terreno pedroso e cascalhudo, o primeiro jogo de bola entre brasileiros, com cincoenta actuantes e nenhum goalkeeper.

Novamente e pela última vez recorro a Chico para dizer onde é que as tampas de relógio entram nesta crônica, contando a história de como ele conheceu Formiga, antigo centromédio do Santos. Ele conta que estava caminhando pela praia com um amigo quando foi apresentado ao Formiga, e o que aconteceu em seguida foi a situação mais idiota pela qual já passou. Depois de um breve diálogo não tinham mais assunto, mas Chico não conseguia parar de olhar para o ex-jogador, o silêncio começando a incomodar. Foi quando, sem pensar, colocou a mão sobre o ombro de Formiga e, com o polegar, começou a pressionar-lhe de leve a clavícula. Chico diz que só quando Formiga começou a ficar vermelho e visivelmente incomodado, foi que percebeu o que estava acontecendo: era seu primeiro encontro com um botão. Formiga tinha sido um de seus melhores botões.

Assim que acabei de ler esta história telefonei para meu pai e perguntei pelos botões dele. Sim, ele ainda tinha, dois times completos cuidadosamente guardados dentro de uma caixa de charutos antiga. Hoje eles estão comigo e os guardo com carinho redobrado porque sei que, além do amor pelos jogadores, meu pai ainda levou anos economizando dinheiro para comprar relógios, pegar as tampas de vidro, lixar, desenhar ou colar os símbolos dos clubes e colocar os números dos jogadores. Os times? Santos e Botafogo. Pelé x Garrincha. Perguntei a meu pai por quem ele os substituiria, nos dias atuais. Ele pensou e não soube responder. Pois é, já não se fazem mais botões como antigamente...

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Ilustração: do livro Futebol - The Brazilian way of life, de Alex Bellos, que fala sobre futebol de botão. No Brasil foi editado pela Jorge Zahar, com o título de Futebol - O Brasil em campo

Curiosidade sobre o futebol de botão: "Foi inventado pelo carioca Geraldo Décourt, em 1930. Ele começou usando botões de cueca para jogar (sim, naquela época, as cuecas tinham botões). Depois, passou a usar os botões da calça do uniforme escolar, o que fez o jogo ser proibido na sua escola, porque os alunos estavam acabando com seus botões!" - Link

Foto do Chico, daqui.

5 Comments:

Blogger stella said...

você voltou!

1/27/2006 05:24:00 PM  
Blogger luma said...

Fiquei sabendo que havia retornado ao mundo blogueiro e vim desejar vida longa !! Boa sorte !! Beijus

1/27/2006 11:27:00 PM  
Anonymous Sonia said...

Ótima crônica, mas ficou faltando dizer que Chico é, como toda minha família, tricolor de coração. E na seleção ficou faltando São Castilho, o goleiro dos goleiros.
PS: tem algo pra você lá no Contandocausos.

1/28/2006 02:25:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Telinha, é você? Que bom te ver por aqui...

Muito obrigada, Luma

Pois é, Sônia, dei mais uma voltinha lá no seu blog e adorei. E salve o tricolor!

beijos a todas,
Ana

1/29/2006 05:00:00 AM  
Blogger Milton said...

Excelente.

1/29/2006 12:49:00 PM  

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