Confissão #15

Outro conto requentado.

*** Bruninho ***

Quando tudo parece difícil, fecho os olhos e volto a ter seis anos. A idade que tive por um segundo. Todos os segundos posteriores foram economizados e são gastos aos poucos, apenas quando muito necessários. Aconteceu que naquele segundo Bruninho segurou minha mão e ordenou:

- Agora! Vamos!

Teria sido uma tarde como outra qualquer se ela não tivesse engolido todo o tempo ao redor, concentrado-se inteirinha naquele instante em que, de olhos fechados, acreditei em Bruninho. Não me recordo de mais nada dos meus seis anos de idade, a não ser aquele momento. Bruninho era meu namorado, muito antes de sabermos o que isso significa. Íamos nos casar quando crescêssemos, e só.

Tínhamos muitos segredos. Brincávamos sozinhos no fundo do quintal, no nosso esconderijo, longe de olhos que não entendiam o egoísmo infantil de nos bastarmos. Bruninho era o homem das minhas brincadeiras de casinha, o pai das minhas bonecas e, no instante seguinte, vestia o cocar de penas de galinha e se transformava no chefe apache dos indiozinhos de plástico. E eu, representando o perigoso inimigo, com um lenço amarrado no rosto que deixava de fora somente os olhos fingidamente maus, liderava o ataque com minha quadrilha de invasores bárbaros montados a cavalo. Nunca discutíamos de quem era a vez de liderar a brincadeira e passávamos de uma para outra instantaneamente. Como se as chaves dos inúmeros universos paralelos entre os quais saltitávamos fossem apenas frases ditas ao acaso, que tanto poderiam ser A Julieta está chorando lá no bercinho ou então Estou preparado para o ataque, cara-pálida. E lá íamos nós trocando de brincadeira, nos divertindo sem percebermos que às vezes Bruninho embalava minha boneca Julieta munido de cocar, arco e flecha; e eu liderava uma invasão ao forte apache armada de perigosas e minúsculas panelas de plástico, nas quais fazia comida de barro misturado a plantinhas.

Dessas brincadeiras ninguém nunca soube. Éramos cúmplices e nos recusávamos quando alguém as propunha: Eu não, isto é coisa de menino, ou Eu não, menino não brinca de boneca. Acontecia que somente juntos, e apenas nós dois, não éramos menino ou menina. Fazíamos parte de uma outra classificação de seres em que qualquer um de nós era nós dois, ao mesmo tempo. Era isso que estávamos tentando provar naquela tarde, a do tempo que me acompanha. Mas muito antes dela eu já tinha aceitado me casar com Bruninho.

Um dia, em uma dessas brincadeiras de menino, ele foi atingido por uma estilingada de bolinha de mamona bem no olho direito. Eu vi tudo de longe e senti a dor de Bruninho tentando bancar o forte, com rosto virado na minha direção. Um esforço enorme para segurar as lágrimas que queriam rolar também do olho não atingido. Percebi que ele não estava mais aguentando, parado no meio da rua, sozinho. Todos os outros meninos tinham fugido correndo, com medo de levar bronca caso o incidente fosse grave. E foi só quando fechei os olhos por um instante e pedi Ai-Deus-do-céu-deixa-eu-sentir-o-que-ele-está-sentindo que ele se permitiu derramar a dor. Ninguém entendeu quando corri pra casa, chorando e cobrindo com as mãos o meu olho são, embora dolorido demais. Minha mãe soprou, procurou cisco, nada. Foi uma dor que só passou no dia seguinte, quando vi Bruninho sorrindo. Era estranho não ver o sorriso no olho direito também, coberto por um tampão. Em solidariedade, durante os dias seguintes e até que ele tirasse o dele, arrumei uns óculos velhos e cobri uma das lentes com esparadrapo. Usava no nosso esconderijo.

Foi logo depois disso que ele me pediu em casamento. Quando tirou o tampão havia uma manchinha marrom no olho, marcando-o para sempre. Bruninho se tornou ainda mais especial para mim, pois aquela outra bolinha dentro do olho fazia dele o que eu já sabia, diferente de todas as outras pessoas. Numa tarde saí do nosso esconderijo e fui buscar alguma coisa que não me lembro o que era. Também não importa, porque acho que se tivessem me perguntado no exato instante em que voltei, também não saberia mais, pois Bruninho me encarou sorridente:

- Tenho uma surpresa para você.

Ele tinha feito manchinhas marrons iguais às dele nos olhos de todas as minhas bonecas. Eu sorri de volta e disse:

- Aceito!

Estava resolvido. Quando crescêssemos, íriamos nos casar e ter muitos filhos, todos com manchinhas nos olhos. Naquela tarde nem brincamos mais. Ficamos os dois deitados na grama, juntinhos, os braços estirados ao lado do corpo, os dedos casualmente se tocando. O coração feliz, em estado de graça. Olhávamos o céu e nem precisávamos falar. Apenas apontávamos uma nuvem e já sabíamos o que o outro estava vendo. Nas nuvens víamos passar nosso filme grandioso, ora em forma de casa, de barco, de avião, de cachorro, de flor, de criança, de cavalinhos... Tudo cabia no nosso futuro, mas só as coisas boas. Quando uma nuvem parecia formar uma figura de que não gostávamos, começávamos juntos a soprá-la, até que ela se dissipasse. E logo a nuvem virava de novo um sonho bom, que sonhamos até a noite nos encontrar ali, maravilhados, eternamente pertencentes um ao outro e àquele instante. Confiávamos na proteção do nosso amor.

Foi por causa dessa confiança que, naquela tarde, aos seis anos, subimos os dois no telhado da minha casa. Tínhamos muitas dúvidas sobre coisas que conversávamos, mas não ousávamos perguntar a ninguém. Queríamos descobrir juntos e não aceitávamos qualquer intrusão no nosso mundinho. Percebíamos que, assim como nós dois nos entendíamos, o entedimento também só era possível entre os iguais. Os cachorros se entendiam, os gatos, os passarinhos, os peixes, numa linguagem que era só deles. Tentamos nos lembrar do momento em que escolhemos ser pessoas e não conseguimos. Então, concluímos que alguém deveria ter feito esta escolha por nós e que poderíamos mudá-la quando bem quiséssemos. Por vários dias discutimos sobre o que queríamos nos transformar, até encontrarmos uma coisa que os dois queriam ser. Sozinho não valia, não teria graça. Tinha que ser os dois. E tinha que ser algo que pudesse ser menino e menina ao mesmo tempo, também como nós. Enfim concordamos: borboleta. Queríamos ser borboleta, talvez por pouco tempo, o suficiente para perguntar a elas se realmente eram como nós, menino e menina, quando quisessem.

Fizemos desenhos para explicar um ao outro o tipo de borboleta que queríamos ser. Eu sabia que Bruninho gostava de azul e me desenhei com enormes asas azuis, de todos os tons que existiam no céu; e para me agradar Bruninho alou-se de laranja e amarelo. E naquele instante que precedeu o mágico segundo, estávamos os dois sobre o telhado de minha casa. As asas enormes cintilando azuis e laranjas ao sol de final de tarde. Entrelaçamos as mãos e nos sentimos fortes e protegidos pelo casulo do amor do outro. Fechamos os olhos e fomos sentindo as asas, o vento, o céu claro, o cheiro infinito das flores. Tudo nos chamava. O que aconteceu a seguir é o meu tesouro, ao qual recorro quando tudo está difícil. Aquele segundo que antecede o sim. O segundo que possibilita a mágica. Aquele no qual, lá atrás, aos seis anos, eu não duvidei que pudesse ser o que quisesse. Só apertei a mão do Bruninho e estava pronta:

- 1, 2, 3 e.... Já!

5 Comments:

Anonymous eduardo said...

Adorei, lindo.

http://dudu.oliva.blog.uol.com.br

1/24/2006 12:06:00 AM  
Anonymous Sonia said...

Qeu bom que você visitou meu blog ontem, o que me fez descobrir o seu. Deste post só posso dizer: mágico, encantador. Andei lendo - e até comentando - posts anteriores.

1/24/2006 12:27:00 AM  
Anonymous Sonia said...

Fui até o final da página e vi que você é de Belzonte (já morei lá e virei um pouco mineira também). Cheguei a pensar que fosse goiana como eu, pois me contaram que adotou o nome Aninha aqui no blog em homenagem a Cora Coralina.

1/24/2006 12:38:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

O Bruninho eu sei que existiu na sua infancia, (o Bruno, filho da Tereza Cristina), então continuo misturando a sua ficção com minha realidade. Lindo! Beijos,

1/24/2006 10:50:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Eduardo.


Obrigada, Sonia. Mágico é o tempo que a gente vai colecionando. E você tem muito de magia no seu blog. Atualmente moro no interior de Minas, embora venha passando muito tempo em BH. Mineiros e goianos têm muito em comum, não é mesmo? Ainda quero conhecer a sua terra, principalmente para visitar a casa/museu da Aninha da Ponte da Lapa. E me chamam de Aninha também, desde que parei de crescer... hehehehe


Mãe, pois é, a gente vai misturando nomes, histórias e lugares, imaginários e inventados. Você está ficando boa nisso!!!! Já detectou lampejos do Zé da Faca e agora detecta do Bruno. Preciso começar a tomar cuidado... hehehe


Beijos a todos,
Ana

1/24/2006 01:12:00 PM  

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