Confissão #14

Uma das minhas maiores dificuldades, e a mais gratificante de superar, é o desenvolvimento de uma personagem. Na sua montagem, há uma linha muito tênue sobre a qual se equilibrar, tendo de um lado o perigo de fazê-la fugidia demais, a ponto de não prender quem a lê, ou completa demais, afastando quem tenta se aproximar. Acho que o maior perigo reside na segunda hipótese, pois é preciso deixar o trabalho interpretativo para o leitor. É preciso permitir que ele participe da elaboração do pensamento da personagem, pois é aí que se dá o envolvimento e que o leitor passa a se importar com o destino da personagem, que então significa algo para ele. E isso tem muito a ver com o que o Cláudio Costa fala neste post, principalmente com a frase: Só existo enquanto significo algo para alguém.

Uma das personagens mais fascinantes da literatura brasileira é a tão falada Capitu, pois acredito que nenhuma outra despertou tanto interesse em relação ao que fez ou deixou de fazer. Mas há também muitas outras, como Macabéia, Capitão Rodrigo Cambará, Ana Terra, Macunaíma, Fabiano, Policarpo Quaresma, Gabriela, Teresa Batista, Augusto Matraga, Dona Flor, Iracema, Diadorim, Riobaldo, Emília (do Sítio...), Bras Cubas, João Grilo etc etc etc... E fico por aqui, correndo o risco de deixar gente boa de fora.

Bem, com esse meu fascínio por personagens, fico feliz ao saber da Pequena Enciclopédia de Personagens da Literatura Brasileira, de Clóvis Bulcão de Moraes, pela Editora Campus. Eis o release:
Por quantos autores você precisa passear para conhecer Capitu, Peri, Macabea, Macunaíma, Vadinho, Analista de Baga, Ana Terra? Por apenas uma. A pequena enciclopédia de personagens da Literatura Brasileira reúne, em um só livro, os personagens mais fortes, mais memoráveis e mais peculiares da nossa literatura.
Este livro narra as histórias e traça os perfis dos personagens mais famosos da literatura nacional, desde os clássicos, passando pelos modernos e chegando aos contemporâneos. A finalidade? Analisar através destas histórias o tempo e a cultura em que viveram. Os diversos brasis revelados pelo cotidiano, pelos costumes, pelas mentalidades de quem tanto já nos encantou em Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Mario de Andrade, Jorge Amado, Érico Veríssimo, entre outros.
A enciclopédia é uma verdadeira viagem ao Brasil dos dois últimos séculos: um mergulho na história e na literatura. É possível entender melhor como era o Brasil escravo, qual era a posição da mulher no século XIX, o papel dos estrangeiros na formação do Brasil, a questão dos homoeróticos. De norte a sul, a sociedade brasileira está bem retratada nos 55 livros que deram forma a este trabalho.
Uma leitura com certeza indispensável para todos que estudam ou se interessam por literatura. Mais que uma enciclopédia, o livro trata de revelar o panorama fiel do país, através dos personagens da literatura brasileira.


*****
E você: quais são suas personagens preferidas da literatura brasileira?

5 Comments:

Anonymous eduardo said...

Fiquei sabendo do seu blog, pelo blog do gravata na globo.
Seu blog é nota 1000. tem muito conteúdo.

http://cartasintimas.zipe.net
http://dudu.oliva.blog.uol.com.br

1/23/2006 02:33:00 PM  
Anonymous Leila said...

Ana, que maravilhosa a dica desse livro!

Engraçado, as pessoas falam tanto da Capitu, mas eu sempre me liguei mais no próprio Dom Casmurro.

1/23/2006 03:36:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Eduardo. Seja bem-vindo!
Beijos,
Ana

****
Pois eu também, Leila. E nada me tira da cabeça que o verdadeiro ciúme que Bentinho sentia era de Escobar, e não de Capitu. Lembra-se de como ele o descreve? Sei lá, posso ter visto/lido coisas a mais, e li várias vezes, e em todas me pareceu bastante sugerido o amor, ou pelo menos desejo raivoso e reprimido, de Bentinho por Escobar.
Beijos,
Ana

1/23/2006 04:01:00 PM  
Anonymous Sonia said...

Acho muito difícl fazer listas dos livros de que mais gosto (ou filmes, cantores, etc)e não saberia dizer hoje qual o meu persoangem favorito. Só sei que aos 12 anos meu sonho era ser lady Marian e namorar Robin Hood. E em época anterior a essa meu personagem favorito era a Emília, lá do Sítio do Pica-pau Amarelo.
Quanto a construir personagens, creio que eles falam por si mesmos, pelo menos é assim que lido com os meus. Lembro até de um personagem que me desafiou, e como não consegui narrá-lo, vinguei-me dele fazendo-o um ser mesquinho e apagado.

1/24/2006 12:25:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

A Emília é mesmo incrível, Sonia. Eu também sou louca por ela.
Também acho que, a partir de um tempo de intimidade, a personagem adquire um falar e um modo de pensar bastante próprios. Quero ler os seus livros.
Beijos,
Ana

1/24/2006 01:16:00 PM  

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