Confissão #100

Não sei ao certo porque demorei tanto tempo para vir fazer esse último post. Talvez tenha sido uma série de coisas, mas também talvez porque é o último. Adoro começar coisas, e geralmente stou começando várias ao mesmo tempo; mas quem disse que sei botar ponto final? Taí Um defeito de cor que não me deixa mentir. Tanto na pesquisa quanto na escrita, o mais difícil foi saber a hora de parar, e até hoje tenho dúvidas se soube mesmo.


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Quem acompanhou o finado Udigrudi talvez saiba que comecei a escrever por causa do blog. Como quase todo mundo com alguma queda para a escrita, na adolescência escrevi alguns contos e poemas, mas nada do que me orgulhasse, e por isso ninguém nunca soube. Abandoneo o hábito quando resolvi estudar Publicidade, e entrei de cabeça na profissão, estagiando em várias agências, trabalhando como revisora e redatora em tantas outras e abrindo a minha, exercia as mais variadas funções durante quase 13 anos, até que perdi o tesão, e comecei a pesquisar a internet como uma alternativa, como um fôlego novo para uma área que parece estar se renovando a cada dia, mas não é bem a verdade. Comecei a buscar na internet uma nova forma de comunicação empresarial, e em 2000 caí em uma lista de discussão da qual não me lembro o nome e nem sei se ainda existe, mas que me fez mudar de idéia. Conheci gente como o Hernani, o Bica e o Maneco e a Cris, da Novae, que já trabalhavam conceitos como inclusão digital, conhecimento livre, copyleft etc..., que me convenceram e tornaram ultrapassados e mercenários os objetivos que, como empresária, eu tinha ido buscar na web. Desencantei de vez com a Publicidade, voltei a ler por prazer e comecei a escrever por necessidade. Desengavetei meus escritos e o sonho de escrever para viver, e os leitores do Udigrudi foram os grandes responsáveis por isso. Por causa do retorno e da proximidade que eu provavelmente não teria em nenhum outro meio. Resolvi confiar nos meus intintos e tentar a sorte.

No final de 2001, já tendo um assunto que me interessava pesquisar, vendi tudo o que tinha em São Paulo e fui embora para a Bahia, onde eu nunca tinha estado. Botei meus pés nos mares daquela terra encantada como se de lá nunca os tivesse tirado, sob a proteção de Iemanjá. Encantei-me por uma casa de portas e janelas vermelhas, em Itaparica e pra lá me mudei, depois de ter me desfeito de tudo que não coubesse no meu carro.

Durante três meses me ocupei de viver, de me recompensar pelos últimos oito anos sem férias, pelos clientes chatos (nem todos, é claro, principalmente os que me lêem agora hehehe), pelos trabalhos com prazo estourado, pelas procupações em ter que cavar trabalho para pagar contas e salários. Dias de deitar na rede da varanda e ouvir o mar, de catar conchas, de andar a esmo, de ver sol nascer e se pôr, de tomar banhod e chuva morna, de aprender a ver de que lado e quando a chuva viria, de tirar o salto e andar descalça, de me acostumar à drástica mudança. E só depois comecei a pesquisar para Um defeito de cor e a escrever Ao lado e à margem..., que lencei em edição independente no final de 2002. Foi um dos primeiros livros vendidos teclado-a-teclado, ou seja, através da divulgação de blogueiros amigos, quase sem a ajuda da grande midia e sem qualquer estratégiade distribuição para as livrarias. Vendi quase toda a edição de 1000 exemplares, e tive a sorte de um deles cair nas mãos do blogueiro, jornalista, geólogo e aventureiro amigo Gravatá, que fez com que outro chegasse ao Millôr, que me levou para a Record, que agora publica Um defeito de cor.


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Contei a história acima para justificar o seguinte: devo a publicação de Um defeito de cor a algumas serendipidades, a uma boa dose de sorte, à ajuda indispensável e nunca agradecida o suficiente de alguns amigos, à coragem da Record em investir nesse catatau escito por uma escritora iniciante e desconhecida, mas, principalmente, à blogosfera. Foi o blog que me fez voltar a escrever, foi o blog que me presenteou com leitores e amigos fantásticos, que sempre me incentivaram a continuar. Isso me leva a crer que não temos a real idéia do tamanho e da importância da influência dessa fantástica ferramenta.E talvez seja até bom que não tenhamos mesmo, pois assim podemos continuar a nos divertir com nossos blogs. Os meus blogs, por exemplo, nunca passaram de uma média de 60 leitores diários, e me levaram a ser publicada por uma das maiores editoras da América Latina.

Não sei se o termo é bem esse, mas "em agradecimento" a tudo o qu os blogs me deram, a partir de certo momento desse aqui, resolvi publicar em partes "Ao lado e à margem do que sentes por mim", e não fazer mais nenhuma edição impressa dele. A que fiz se pagou e me deu muito mais do que eu poderia esperar quando resolvi fazê-la, confesso que por pura ansiedade, por não ter paciência de esperar por respostas de possíveis editoras. E, é claro, por acreditar também.


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Já fui muito mal interpretada ao contar essa minha história, pois acharam que eu estava querendo me exibir. Já fui mal interpretada também ao dar algumas dicas para quem estava querendo publicar, mas vou correr o risco de sê-lo novamente, porque acho que vale a pena. Já fui até mal interpretada por ter tido sorte, mas me tranquilizei quando um amigo disse que sorte é quando a oportunidade encontra a capacidade, e comecei a acreditar que a mereci. Dizendo assim, até parece ter sido tudo fácil, mas não foi. Mas a sorte pode sim ser fator decisivo no mercado literário, assim como em muitos outros. Acredito que há algumas maneiras de atraí-la, mesmo sabendo que não há um único caminho das pedras, pois cada um deve esncontrar o seu. Mas há alguns atalhos:

1 - Levar a sério o processo da escrita. Antes de qualquer coisa, fazer literatura é trabalhar, trabalhar e trabalhar as palavras. Muito. Acreditar em inspiração e esperar por ela é perder um tempo precioso no qual o trabalho poderia estar sendo feito. É claro que há momentos mais propícios ao insight, mas eles devem nos encontrar trabalhando. Fiz 19 versões de Um defeito de cor, e relendo-o depois de impresso vejo muitas passagens nas quais eu devereia ter trabalhado mais, e algumas gralhas que me pegaram (e às revisões) distraída. (por favor, quem o estiver lendo, encontrando mais algumas, mande pra essa que, otimista ao extremos, acredita em próximas edições ;-)). Com isso aprendo que o livro publicado nunca é o livro ideal, mas apenas o livro possível. E isso dá um tremendo alívio para continuar trabalhando.

2 - O trabalho nunca termina depois de se escrever o melhor livro possível, pois, procurar uma editora para ele também dá trabalho. tendo uma vaga noção disso, eu comecei bem antes de terminar de escrevê-lo. Como tive sorte, não precisei passar por esse processo de busca, mas eu estava preparada para ele. Quando decidi que queria escrever e publicar, ainda em 2001, listei 10 editoras das quais mais gostava e, durante dois anos, pesquisei tudo sobre elas: quando e como surgiram, quem eram os editores responsáveis por ficção nacional, assinei boletins de lançamento dessas editoras - para saber em que tipo de livros e de mercados apostavam-, comprei pesquisas sobre o mercado editorial brasileiro, li muitas dicas de escritores publicados, descrobri quais editoras apostavam em iniciantes, qual a parcela de autores nacionais publicavam em relação a traduções etc... É um trabalho que parece não ter muito a ver com as funções de um escritor, mas é significativamente importante para quem quer começar. É preciso que haja uma identificação entre a obra que vai se propor e o catálogo e a visão da editora. Sabe-se que é muito difícil lançar um livro sem Q.I., mas é possível; mas é impossível lançar um livro sem Q.I. mandado para a editora errada.

3 - A apresentação do melhor livrpossível à editora certa também é muito importante. Faz uma bela diferença um original bem preparado, bem impresso, limpo e, de preferência, acompanhado de uma carta e apresentação dirigida ao(a) editor(a) responsável. Na carta, o escritor deve falar um pouco sobre o livro, sobre o que o levou a escrevê-lo, e demonstrar que foi com conhecimento de causa que decidiu enviá-lo para aquela editora. Mostrar que conhece o catálogo da editora, o trabalho que ela vem fazendo, e, por isso, sabe que o livro se encaixa no processo em andamento. Caso contrário, o livro será apenas mais um entre tantos outros que eles recebem (e se você não diz que não, não há porque eles pensarem diferente), e não custa nada facilitar o trabalho de triagem.

4 - Se você acredita na qualidade do seu livro: trabalhe, trabalhe, trabalhe. E invista nele: tempo ou dinheiro, ou os dois. Eu já fiz isso, e não me arrependo nem um pouco.

mas como eu disse antes, cada caso é um caso. Eu estava preparada para fazer tudo isso aí acima, mas não precisei. Ou talvez, até por causa disso eu não tenha precisado. Vai entender as serendipidades da vida... ;-) Mas, levando em conta tudo o que pode acontecer, o que desejo do fundo do meu coração a quem quer tentar, é: sorte! Muita sorte!


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Acabei não falando nada da noite de autógrafos de BH, em 12/05, que foi uma delícia. é muito bom a gente saber que pode contar com a família, com os amigos, com muitas pessoas queridas que participaram daquela noite tão importante para mim. Muito obrigada aos que compareceram, aos que escreveram, aos que desejaram boa sorte, aos que divulgaram. E o meu agradecimento especial para ele, que fez tudo acontecer.


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Não posso reclamar da divulgação. A assessoria de imprensa da Record tem trabalhado bastante e tem saído várias coisas sobre o livro. Já teve resenha de página inteira e entrevista no Prosa e Verso (perdi a oportunidade de linkar, e agora não encontro nem em cache mais), nos jornais de Minas, tenho dado entrevistas para vários programas de rádio, fui a um programa da Tv Horizonte, e tenho recebido um excelente retorno de vários leitores. Pois é, essas coisas acontecem! ;-))


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Mais algumas noites de autógrafo agendadas:

Rio de Janeiro - 03 de agosto, às 19:00h, na Argumento (Rua Dias Ferreira, 407 - Leblon)

Paraty - 12 de agosto, às 19:00h, na livraria Nova Paraty (Rua da Praia, 159 - Atrás da Casa da Cultura - como parte da Programação do
Off Flip

São Paulo - 16 ed agosto, às 18:30h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena)


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Também fui convidada para dois eventos literários:
6 Feira do Livro de Ribeirão Preto, de 15 a 24 de setembro, na qual devo falar no dia 20, no Salão de Idéias

Tardes Literárias , dentro da Segunda Festa Portuguesa de Cabo Frio, que acontecerá de 6 a 12 de outubro. Devo falar no dia 7.


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Sempre que eu tiver algo a dizer, e ele deixar,darei um jeito de me convidar para blogueira convidada no Biscoito ;-). Acompanhem o blog dele e, sobretudo, participem do Clube do Leituras, que está começando as discussões sobre Grande Sertão: Veredas. Sabendo tudo que eu sei que ele sabe sobre esse livro, é imperdível.


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Acabei fazendo várias confissões, nesta que seria apenas a última. Quanto às anteriores, muito obrigada a todos que leram, comentaram, mandaram e-mails. Adorei os novos amigos e o contato com os antigos. Talvez algum dia eu volte, com outro blog. Talvez não. Tenho três livros começados e estou pesquisando para mais três, a trilogia "A história fantástica de Minas Gerais", que pretendo contar desde a pré-história até pouco depois da Inconfidência. Como podem ver, muito trabalho, trabalho e trabalho. Amém!
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Confissão #99

É hoje!

Livaria Quixote
Fernandes Tourinho, 274 - Savassi -BH - Das 19:30 às 22:30.

Estou ansiosa e feliz, afinal foram muitos anos sonhando com esse livro. Na semana que vem faço um post decente, mas hoje nãopoderia deixar de vir aqui agradecer aos amigos que divulgaram, que enviaram e-mails de boa-sorte, que deixaram recados nas caixas de comentários.

E se se confirmar o que o Sérgio Rodrigues disse no excelente Todoprosa (dica imperdível para quem gosta de literatura), terei mais um motivo para comemorar: ele diz que Um defeito de cor pode ser o maior romance publicado em língua portuguesa em um único volume: 952 páginas. Será? Alguém sabe me dizer?

P.S. - para quem quiser conferir, já o achei para vender aqui , aqui, aqui, e aqui
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Confissão #98

Estou boba, boba. Meus exemplares acabaram de chegar e agora Um defeito de cor é real:


Atualização: Leiam aqui o que o Idelber escreveu sobre o livro, me deixando mais sem palavras ainda.
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Confissão #97

(Finalmente o último capítulo. Vocês já deviam estar de saco cheio, né? Mas um dos próximos posts vai ser porque resolvi publicar aqui esse livro. E, como fiz com o primeiro capítulo, ele vai inteiro, mesmo longo)


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Capítulo 13 - Parte final


Aos teus pés


Aos trinta e dois anos de idade, soltei-me das garras do meu medo e me atirei ao lago. E ele me acolheu com a alegria saudosa de velhos amantes, daqueles que já conhecem os corpos um do outro e sabem de todas as suas manias e preferências, marcas e reentrâncias. Passou-se muito tempo desde que nos vimos, mas ele ainda foi capaz de me envolver com as mesmas sensações. Desta vez, voluntárias. E nem sei se é apenas porque já aprendi a nadar. Ele se estendeu às minhas margens e abriu o caminho para que eu atingisse as margens dele também. Habitávamos um no outro, desde sempre.
E é desde sempre também que ele me descobre. E agora me fala da mesma maneira que antes, ainda que tenhamos tomado caminhos diferentes.

Perdoa-me por mentir? Porque assim também é o amor, muda o curso do passado da gente, purifica os pecados, faz esquecer os deslizes. Amor. Eu digo esta palavra e a boca me enche de água. Benta. O amor beatifica a alma ao mesmo tempo em que assanha os demônios do corpo. E a gente passa a sonhar acordado, satisfazendo os desejos mais urgentes. Inventa amantes, entrega-se a eles e tenta provocar ciúmes no homem amado. É na limpidez de um lago que a verdade não tem onde se esconder, não há dobras, curvas, nesgas ou frestas onde ela não se afogue. Não há como ser conhecedor único das mentiras que empurramos para debaixo do tapete quando ninguém está olhando. É por isso que agora confesso, como se ainda precisasse: não houve amor na cama coberta com pétalas de rosas. Houve apenas a continuação de um sonho, delimitado por um grito e um despertar, que acabei de sonhar acordada. Para não perder o controle.

Eu precisava imaginar algo que não me fizesse vítima passiva da espera. Algo que me dissesse que ainda sou capaz de sentir desejo e entrega, muito além de um único beijo. Este sim, aconteceu. Fechei os olhos e imaginei que ali na minha frente, entre os meus lábios, estava ele, o amor em pessoa. E naquele momento eu o amei, como só a você sou capaz de amar. Eu precisava contar para que não haja mentiras entre nós. E se eu convivesse um pouco mais com ela, passaria a ser verdade, pois é muito fácil nos enganar. Como conhecemos o nosso ponto fraco, vamos direto a ele, ao lugar onde conservamos as defesas desarmadas. Como alguém que escreve cartas de amor para si mesmo e se apaixona pelo remetente.

Talvez, ao tentar provocar o ciúme, a gente só queira testar a dimensão do amor. Nunca o senti, o ciúme. Será que nunca amei o bastante? Ou nunca alguém me amou o suficiente para que eu o sentisse verdadeiramente meu? Sempre fugi dos homens que se demonstraram ciumentos. Na verdade, o que eles queriam era subjugar, possuir, e não mostrar que eu pudesse querer ser possuída. Preciso de um que me permita ser alvo do ciúme e ceder ao sentimento, sem achar que cedo ao homem. Da mesma maneira que quando sorrimos para o ser amado é de uma felicidade que não vem dele, mas da qual enlouquecemos irremediavelmente a partir do que ele provoca.

Hoje vim até aqui para observar, para ter certeza de que os meus lugares para onde voltar ainda esperam por mim. A ilha também me espera, em passagem marcada para amanhã; e em telefonemas diários a dona Isabel me manteve informada: ninguém chegou. Antes de encarar isso, eu precisava me sentir pertencendo a alguém, a algum lugar. Dizem que a gente não pertence a lugar nenhum até que enterre ali os nossos mortos. Nesta cidade eu tenho os meus, antigos e recentes. Ontem fui visitar a minha avó Lola e me lembrei de que foi ela quem tirou Poliana dos meus livros de história e a transformou em minha boneca e amiga preferida.

Poliana me entendia e ajudava, tomava lição, distraía-me quando eu ficava de castigo, dava-me razão em tudo. E me contava muitas histórias, pois conhecia o mundo inteiro; já tinha brincado em inglês, francês, alemão, japonês, italiano, espanhol e qualquer outra língua da qual eu soubesse o nome ou o país. Hoje imagino que o que ela não sabia, inventava. E mesmo nas suas invenções tinha visitado todos aqueles lugares e me falava de brinquedos e brincadeiras, costumes, roupas, músicas, comidas e o que mais eu quisesse saber. Ficávamos horas planejando viagens para tais lugares, para quando eu crescesse e pudesse ir só com ela. Até que alguém se aproximava e Poliana me deixava falando sozinha, fingindo ser apenas uma boneca. Este era o nosso maior segredo, e para preservá-lo eu aprendi a imitar sua voz, e continuava a nossa conversa quando perguntavam se eu estava falando sozinha de novo. A princípio eu dizia que não, que era com Poliana. Mas depois resolvi brincar com eles também, dizer que sim, que eu falava e brincava com amigos imaginários, alimentando minha fama de menina estranha.

Tínhamos um código. Eu adorava estar com Poliana, mas às vezes queria ficar sozinha, brincar sozinha, e então ela se fingia de boneca, ficava parada, quietinha onde eu a deixava. E quando queria chamar a minha atenção, tocava sinos. Uma vez, duas, três vezes. Se eu não respondesse, ela não ficava chateada, entendia e continuava sua brincadeira de ser brinquedo. Brinquedo que eu já conhecia muito bem, antes mesmo que a minha avó a fizesse para mim. Sabia tudo sobre ela, e a via com seus cabelos loiros, seus olhos azuis, suas sardas, seus vestidos de babado. Sabia das suas brincadeiras preferidas e treinava todos os dias o Jogo do Contente. Então, para mim, Poliana era motivo de alegria; eu sempre a imaginei com um sorriso bondoso no rosto. Procurei em várias bonecas o sorriso de Poliana e não encontrei. Resolvi que ia fazer a minha, e em uma das muitas tardes que passava com a minha avó, pedi a ela que me ajudasse, e nos sentávamos sob a parreira com um cesta de tecidos, linhas, tesoura, agulha, lã.

Primeiro o vestido de babados com mangas bufantes e cinto de organdi. Depois o corpo e a cabeça com longas tranças de lã amarela. O rosto com olhos de botões azuis, o nariz empinado de botão de madrepérola, as bochechas salientes moldadas em espuma por baixo do tecido, com muitas sardas pintadas à mão. Pintadas também foram as sobrancelhas, os cílios e as narinas. Tinha até uma covinha no queixo, feita com um ponto apertado no tecido. E por último meias brancas de renda e sapatos pretos de crochê. Só faltava a boca, que eu ainda não sabia como fazer, e disse a vó Lola que queria um sorriso. Sem saber que eu pensava no de Poliana, a minha avó abriu um sorriso que era exatamente como o que eu imaginava. Pedi que ela não se mexesse e corri para dentro da casa em busca de um espelho. Quando voltei, acho que foi a primeira vez que vi minha avó chorar, ela tentou disfarçar, abaixando a cabeça para bordar logo o sorriso de Poliana, mas uma das lágrimas escapou e caiu bem na bochecha da boneca, numa sarda ainda com tinta fresca. E eu nunca conseguia olhar para esta sarda sem enxergar o formato de um coração.

Foi esta lembrança que me trouxe até à casa onde minha avó morou, para ver se conservava a parreira. Está desabitada, mas foi como se eu ainda pudesse ver meus tios jogando bola, a grande mesa posta na varanda para os almoços de domingo. Sabe que foi nesta mesa que apanhei pela primeira e única vez na minha vida? Não sei se depois dei motivos, provavelmente não. Preciso perguntar aos meus pais, mas agora tenho quase a certeza de que foi no mesmo dia da minha primeira visita a este lago, com a minha mãe. Acho que sim, que ela saiu para passear comigo para que eu parasse de chorar, embora não deva ter doído tanto assim. Se doeu, foi mais nele que em mim, eu sei. O meu pai tinha pedido diversas vezes para que eu descesse da mesa onde desfilava de um lado para o outro, depois do almoço. As pessoas ainda na sobremesa ou no café, e eu me divertindo com os pedidos de “dá uma voltinha”, “agora faz pose”. O meu pai achando um abuso, uma falta de respeito e pedindo que eu parasse com aquilo, que desfilasse depois, e não em cima da mesa, de onde até poderia cair e me machucar. Ninguém mais via isto, só ele. Então me tirou de cima da mesa com duas palmadas que me fizeram fechar o sorriso e chorar o resto da tarde de domingo. Acho que sim, que foi depois disso que a minha mãe me trouxe para passear aqui.

Tenho também vivas as recordações da garagem onde minhas tias faziam bailinhos regados a ponche e martini com guaraná, e eu ficava olhando de longe, escondida - nova demais para participar e velha o suficiente para achar esta proibição uma grande injustiça. O corredor que descíamos de carrinho de rolemã. O fogão a lenha onde tinha sempre água quente para o café ou fumegava um tacho de doce de leite, de goiaba, de laranja da terra. O conforto das coisas conhecidas, era disto que eu estava precisando. E então me lembrei do rio.

Eu precisava vir porque me dava urgência a passagem marcada para o dia seguinte, as dúvidas sobre a ilha e a possibilidade de não voltar mais, que eu realmente começava a considerar. Um recuo como estratégia de renovação da vida. Eu nunca imagino que todos os meus sonhos sejam infalíveis, e tenho aprendido a considerar a volatilidade das coisas. Contar sempre com o certo paralisa as nossas outras vontades e nos conserva em um estado de extenuação pós-voluptuosa - foi Drummond que disse algo assim -, incapazes de irmos atrás de outros sonhos.

Ponha-se ao longe e observe: uma mulher que abandona tudo e vai viver em uma ilha desconhecida, sozinha, à espera de um amor; um amor também desconhecido. Você morre de amores por ela, ou morre de pena? Há muito dos loucos na alma dos apaixonados, desde a união de Poros e Penia, de quem o Amor é filho. Metade feminino e metade masculino. Metade mortal e metade imortal. Metade lúcido e metade louco. Ora dá, ora mendiga. Esta inversão vicia; acho que não vivo mais sem ela, mesmo doente, usando também esta palavra no sentido de “o que dói”. Ainda sobre o amor, diz-se que sucede a paixão, uma patologia, sim, visto que não é boa nem má, e apenas depende de como progride. Adoece-se de paixão no ódio, no ciúme, na inveja. Então, o que resta para o amor? É dela a cura ou a evolução? Não sei... Só sei que sofro de amor. É como uma falta de ar, uma impossibilidade de respirar sozinha, e querer que alguém respire através de mim e por mim. É o que se faz com quem se afoga, não é? Revive.

Ao mesmo tempo, há uma vontade de permanecer assim, porque desta maneira se habita um outro lugar que não é o nosso. Que não conhecemos e onde também ninguém nos conhece. E então podemos falar besteira, cometer gafes, dar vexame, fingir ser o que não somos. E tudo se perdoa em nome do amor. Ele se torna um Deus único e soberano, onipotente, aos pés do qual nos prostramos agradecidos e temerosos. Faz-se penitência, reza-se novenas, amaldiçoa-se os hereges insensíveis, obedece-se a um outro código de moral e comportamento. Vive-se flagelando corpo e alma para merecer uma audiência com ele, breve que seja, punitiva se for preciso, abençoada se meritória.

Quando pensava no último amor eu tinha vontade que o meu nome estivesse escrito, com todas as letras e não apenas com traços, na mão direita deste alguém. Para que ela, a mão, seja incondicionalmente entregue à palmatória. Tenho medo das dúvidas, dos enganos, dos que não acreditam no que considero serem as minhas certezas ou, pior ainda, dos que não acreditam nas próprias certezas se elas não se apresentam tão claras. E se nesse caso me dissessem “engano de pessoa” eu diria que não se foge do destino. Pega-se atalhos, tenta-se encontrar a saída por caminhos diversos, mas sempre nos perdemos nas teias labirínticas que ele vai trabalhando ao nosso redor. Não acredito que devemos nos deixar levar de uma forma passiva, mas temos que nos render diante das revelações. Nelas também não há brechas para eufemismo, sorte é sorte, não é coincidência.

Você sabe a diferença entre falta e ausência? Eu já destilei tanto estes sentimentos que sou capaz de distingui-los de olhos fechados. Há uma expressão que a minha avó dizia e que me deixava maravilhada: “fazer boa ausência de alguém”, que significa falar bem de alguém que está ausente. Eu achava isto uma das coisas mais nobres que se poderia fazer por alguém. Na falta, isto não é possível, quase sempre ela incorre em defeito, privação ou culpa. Não se faz boa falta de ninguém; não querem dizer a mesma coisa, embora digam.

Eu preciso que a vida também conheça estas sutilezas, para que não me puna pelos anos em que estive ausente. Para este lago, ela, a vida, não reservou grandes surpresas. Continua sendo eu. Pedindo aos céus que me poupe das grandes verdades, das grandes decisões, dos grandes erros. Pelo menos até o momento em que resolvi entrar, medir forças, para ver quem aguentava mais a presença do outro, como nos jogos que fazíamos na infância.

Pois então, quer saber por que me atirei ao lago? Vontade de justificar a minha falta, de começar de novo, de me reinaugurar. Eu queria alcançar esta outra margem, nadar até onde nunca tinha vindo. E num último mergulho, já chegando aqui, mas ainda sob as águas, vi um vulto se mexer. Puxou meus olhos para fora da água e eles se prenderam ao vôo dele, como a um anzol. Uma minúscula borboleta espelhando no lago as cores vibrantes que trazia nas asas, destoando do tom de quase luto fechado deste lugar. Acompanhei seu vôo tranquilo sobre as águas que pareciam se tornar mais azuis por causa do contraste, até aqui na areia, onde ela veio pousar. Destinada que era, aos teus pés.

Fim
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Confissão #96

Capítulo 11 - Parte V


Do que são feitos os sonhos


É estranho estar agora a caminho de Ibiá; e se eu tivesse pensado melhor, mais certo seria não estar. Mas acho que deve ser mesmo o que tenho a fazer. Eu estou confusa, precisando demais de você, e você não chega. Acho que esta viagem vai ser boa para colocar os sentimentos nos devidos lugares. Ajustar o foco, sabe como é? A necessária distância para se enxergar nitidamente todos os acontecimentos. Às vezes ficamos tão apegados a uma idéia que não enxergamos mais nada para além dela. Eu só te peço que fique comigo, que não saia do meu lado, por favor, porque eu tenho medo de cometer mais enganos.

Queria encontrar por lá a minha avó Lola. Acho que nunca te falei dela, não é? Mas vou falar em um lugar muito especial. Eu a tenho sentido muito próxima nestes dias, e me lembrado de como ela morreu. Já estava doente havia alguns meses, melhorando e piorando, e nós sem conseguirmos nos esquecer de que o médico tinha dado mais seis meses de vida; a esperança oscilando como o estado de saúde dela. Morreu de repente, depois do período significativo de melhora. Os filhos que tinham estado sempre por perto, voltaram para as cidades onde moravam, voltaram ao trabalho, aos próprios afazeres e relaxaram. Fomos surpreendidos com a notícia da morte dela, e depois nos disseram que é mesmo assim, que precisávamos relaxar a vigília para que ela enfim pudesse seguir seu caminho. Sei que não se compara, mas será que vai ser assim com você? Será que agora que eu saí de lá, da ilha, que eu relaxei na espera, você enfim vai chegar?

Avisei a dona Isabel para que ficasse atenta. Ela vai dormir lá na casa durante os dias em que eu estiver ausente. E vou telefonar em cada um destes dias para saber se você apareceu. Esperei-o tanto, que agora só espero que você saiba fazer o mesmo por mim; serão só mais alguns dias. Menos ainda do que eu, a dona Isabel não sabe quem é você, pois contei apenas que gosto de alguém e que este alguém pode aparecer. Ela queria saber como você é, e eu disse que não me lembrava, que poderia estar mudado, diferente, mas que você se apresentaria. Ela não ia acreditar se eu dissesse que não sei, ia achar que mais uma vez alguém é contaminado pela loucura do Zé. Se não acreditou na história de Lorelei, porque acreditaria na minha? Achei melhor não contar.

Sabe do que acabei de me lembrar agora? Que não perguntei ao Zé o que significam aquelas letras no peito dele. L sei que é de Lorelei, mas e as outras? Nem me lembro mais quais eram, não era uma sequência lógica que fosse fácil de gravar. Engraçado, mas é como se eu tivesse a sensação de que não vou voltar. Seria mais cômodo, não seria? Tenho esperança de que quando voltar você esteja à minha espera. Mas se não estiver, o quanto mais eu aguento de incertezas e decepções? Eu não sei, e é tentadora a idéia de não voltar, de não correr riscos, de dar um jeito para que me enviem as coisas que deixei lá. Preciso pensar direito, mas sabe por que acho que não farei isso? Porque não tenho para onde ir, não tenho casa, não tenho um lugar para onde queira voltar. A única coisa que é verdadeiramente minha é algo tão subjetivo que às vezes até eu duvido que exista: esta espera por você.

E antes que eu enlouqueça mesmo, faça-me acreditar de verdade, não me deixe mais achar que venho apenas me enganando este tempo todo. O tempo... Será que o sente do mesmo modo que eu? Será que ele existe para você da mesma forma que existe para mim? Então deve perceber que ele anda nos afastando, ao invés de fazer ficar mais próxima a sua chegada. Porque cada dia é um dia a mais na sua falta, e não um a menos na sua espera, já que ela não tem data para terminar. E eu já não aguentava mais. Perdoa? Eu tive medo. Como no sonho em que estava cercada de morcegos, muitos, maiores e mais ameaçadores do que os que eu conheço, e eles me atacavam. Eu gritei por você e você não apareceu. Eu continuei gritando e J. foi ver o que acontecia.

Eu acordei tendo quase a certeza de que você não existia. Pelo menos não desta maneira que eu te quero, que eu te vejo, que eu te procuro e sonho. Você é apenas um homem, qualquer um. Não um qualquer, mas amado por mim vai se tornar tudo o que eu espero que seja. E o mesmo acontece comigo. Será que você vai ser capaz de ver como sou apenas mais uma mulher? Que apenas através do seu amor é que eu vou me tornar a sua mulher? Então, é por isto que às vezes eu tenho medo de que não nos reconheçamos. De não sermos ainda o que estamos procurando. Acho que é por isso que tenho tanto cuidado quando falo de J.... Porque poderia ser que eu estivesse falando de você, contradizendo tudo que eu afirmava sobre te reconhecer assim que colocasse meus olhos em você. Foi disso que eu também tive medo, e por isso deixei J. ficar. Ele disse que me abraçaria, só abraçar, nada que eu não quisesse, e tudo ia passar; o medo, o frio, a sensação de abandono na qual você me deixou. E eu quis, eu quis o abraço de J. e fiz com que ele me quisesse também, com tudo que eu tinha direito, com tudo que eu esperei receber de você quando você chegasse. Os abraços, os beijos, os carinhos, as pétalas de rosa, o prazer. Eu não sei a quem de nós três eu traí; talvez a mim mesma. O que você vai me dizer se eu te contar que não sei com quem fiz amor? E que mesmo assim eu gostei? E que quero repetir quando voltar? Só não sei se você vai estar me esperando...
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Confissão #95

Capítulo 11 - Parte IV


Do que são feitos os sonhos


Durante a tarde, tentei encontrar o Zé e não consegui. Queria me despedir dele e pedir que ficasse atento. Eu, que tenho a mania dos sinais, acabava de receber um. Liguei para J. e ele disse que viria me buscar e me levaria ao aeroporto. Aceitei, porque assim chego mais rápido e também converso direito com ele. Queria deixar claro que mesmo com o bejio nada tinha mudado entre nós. Ou será que era eu quem precisava me convencer disto? Precisava ouvir isto para me convencer?

- Mas quando você volta? – ele quis saber.

- Acho que em três ou quatro dias. Dá para aguentar a saudade? – brinquei com ele.

- Vou tentar. Mas me avisa que eu vou te buscar, está bem?

Eu tinha conseguido um vôo para as seis da manhã do dia seguinte. Ia de avião até Belo Horizonte e de lá seguiria de carro com os meus pais até Ibiá, onde chegaríamos ainda a tempo do enterro. A minha mãe não acreditou quando eu disse que iria e pedi que me esperassem, pois ela tinha telefonado mais por desencargo de consciência. Avisou-me da morte da Tê, que trabalhava em casa e ajudou a cuidar de mim e de meus irmãos até nos mudarmos de Ibiá. Sentíamos um carinho muito especial uma pela outra, e eu sempre a visitava quando ia até lá; já fazia pelo menos uns cinco anos desde a última vez. Ela tinha uma certa idade e estava doente havia algum tempo. Eu perguntava muito por ela, de quem a minha mãe sempre tinha notícias; e mesmo assim, ela não achou que eu fosse. Eu tinha dito que não sairia da ilha por um bom tempo, que precisava descansar e tomar algumas decisões. Menti, porque tenho a certeza de que nem a minha mãe me apoiaria nesta idéia que parece absurda para quem não a vive, a de estar fisicamente à espera de um amor.

Em outra situação talvez eu não fosse mesmo, mas enquanto falava com minha mãe ao telefone, lembrei-me do sinal que eu havia pedido. Achei que fosse aquele e que era melhor mesmo viajar, melhor me afastar um pouco. Aquela era uma oportunidade de estar longe da atenção de J., da espera, das minhas dúvidas, dos meus medos. Pensaria melhor se pudesse estar apenas comigo mesma. E é claro, sentia muito pela Tê também. Sempre que eu ia a Ibiá para o Natal, trocávamos presentes, e era como se eu a visse abrindo os braços e me puxando para ela, dizendo “repara não, é lembrancinha de pobre, mas é de coração”. Ela não sabia quantas outras ricas lembranças tinha me dado, com jeito de avó carinhosa ajudando a minha mãe a cuidar da casa e dos filhos. E a viagem seria também uma oportunidade para rever os meus pais, a minha avó que ainda morava lá, os meus tios, alguns amigos e a cidade onde nasci. Tenho me lembrado tanto dela ultimamente, da infância, de uma época feliz. Do lago.

J. foi me buscar de lancha antes que escurecesse e me convenceu de que seria melhor passar a noite em Salvador; isto é, era quase a única opção. O vôo sairia bastante cedo e eu teria que deixar a ilha ainda de madrugada, no escuro, o que seria arriscado fazer em uma embarcação pequena. E a balsa, dependendo ainda das condições do mar, só começa a travessia às cinco horas, não deixando tempo suficiente para eu chegar ao aeroporto. Prometi a ele que durante a viagem pensaria no que tinha acontecido entre nós e no que ainda poderia acontecer.

- Eu vou te esperar – foi o que ele respondeu.

E eu tive vontade de dizer que estava cansada de esperas...

Fomos para o apartamento dele. Quando chegamos, ele me mostrou o quarto que tinha mandado preparar para mim. E logo em seguida o dele, se eu preferisse. Disse que não tentaria nada que eu não quisesse, que eu podia até trancar a porta do meu quarto se assim achasse melhor. Mas ela estava lá, para me provar que não mentia: a cama dele coberta com lençol de linho branco e pétalas de rosas vermelhas.
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Confissão #94

O artigo abaixo, no Rascunho, está muito, muito bom. Não deixem de clicar e ler:

A LITERATURA NA POLTRONA
José Castello defende a volta à experiência íntima e direta da literatura, sem o apoio de intermediários, sem manuais de leitura, sem muletas, ou precauções
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Confissão #93

Capítulo 11 - Parte III


Do que são feitos os sonhos


- Ai, dona Isabel, eu dei um beijo nele.

Ela tinha acabado de lavar a louça do almoço e estávamos na nossa hora costumeira de ficarmos sentadas na mureta do jardim, olhando o mar.

- Eu imaginei – ela pareceu feliz ao ouvir minha confidência. - A senhora se levantou numa alegria que dá gosto. Andava tão tristinha por estes dias...

- O que a senhora acha?

Ela já tinha me falado tanto dele, que ele não prestava, que era para eu tomar cuidado, e, no entanto, parecia ter mudado de idéia, ter gostado de saber do beijo.

- A senhora é quem sabe. Vai ver consegue consertar o boto, não é mesmo? Dizem que pau que nasce torto nunca se endireita, mas quem sabe... – respondeu, não querendo dar o braço a torcer.

Eu estava feliz sim, como há muitos dias não ficava. Foi só aquele beijo, só um, e depois estivemos conversando de mãos dadas, olhando o mar de fim de tarde até o dia escurecer por completo. Na hora de ir embora, J. tinha me dado outro beijo, mas que não contava porque foi rapidinho, só encostando os lábios. Mas bom, suave, carinhoso. Então, por que esta felicidade quase adolescente? Por que esta alegria ao recordar de um beijo?

O primeiro beijo em um homem tem quase sempre o sabor de um primeiro beijo na vida. A gente nunca sabe como vai ser, de que lado vai colocar a cabeça, se vai ter língua ou não, se vai sentir aquela vontade incontrolável de ir mais além. Será que apenas as mulheres sentem isso? Ou será que os homens também sentem tudo o que há por detrás de um beijo? Mas o beijo em J. tinha sido muito bom, tranquilo, carinhoso; durante e depois J. tinha ficado um tempão me fazendo carinho no rosto, na nuca, olhando pra mim, sorrindo.

- Eu não sei, dona Isabel. É que tem uma outra pessoa de quem eu gosto, sabe?!

- E onde essa pessoa está? – ela pareceu surpresa, pois nunca tinha me ouvido falar de alguém de quem eu gostasse, ou de um namorado. E percebia que ninguém me telefonava, pelo menos ninguém por quem eu parecesse ter um sentimento especial. Aquela era uma pergunta difícil de responder. Principalmente para mim, que sei a resposta: não sei.

- Está viajando. Pra longe. E agora eu não sei o que faço.

Eu tinha prometido a mim mesma que não ia pensar nisso, que ia aproveitar ao máximo a sensação de carinho bom que tinha ficado, mas não estava conseguindo. O que aconteceu ontem com J. acho que foi coisa do momento, eu estava encantada com o presente, com o jeito de ele me tratar, de me olhar. E como eu poderia saber se quem eu espero também estava me esperando como eu estive até então, guardando-me para ele? Mas tinha J., e eu não queria enganá-lo, não queria fazê-lo sofrer nem me aproveitar da companhia dele para dar uns beijos e pronto, para deixá-lo assim que o outro chegasse. Mas, e se o outro não chegasse e J. também se cansasse de me esperar? O pior é que eu tinha que dar o braço a torcer, tudo estava acontecendo exatamente como J. disse que aconteceria, que eu ia aprender a gostar dele – confesso que de início eu o achava bem pedante, convencido -, que eu ia querer beijá-lo. E depois ia querer fazer amor numa cama coberta de pétalas de rosas vermelhas...

- Ele ainda vai brincar comigo. Eu falei tanto que nunca ia acontecer nada...

- O que a senhora disse? – perguntou dona Isabel.

- Nada não. Pensei alto aqui, dona Isabel.

- Pois é – comentou ela –, e eu também penso alto que há muito tempo não via a senhora tão feliz. E falando em felicidade, olha ela ali mandando recado.
Era de novo o entregador da floricultura, e J. tinha mandado um buquê de jasmins, dizendo no cartão que era para perfumar o meu dia. De novo outra coisa que eu nunca tinha recebido: jasmins. Por que é que estas coisas acontecem? A gente passa tempos sozinha, e quando não está mais, quando está feliz com alguém, aparece outro pra atrapalhar. Para confundir, levar embora as certezas. A felicidade fica dividida, metade com um e metade com outro, e a gente não tem como unir as duas partes. Será que J. é uma prova pela qual eu tenho que passar para poder merecer o último amor? Será que eu tenho que resistir, e posso colocar tudo a perder deixando isso que eu sinto ficar dividido entre os dois? Ou melhor, com J. está apenas no começo, não é nada forte, mas eu sei que se continuar pode vir a ser. Ou será que J. é ele, e eu estou perdendo tempo? Eu sempre tive a certeza de que o reconheceria quando ele chegasse, mas pode não ser assim. E há tantas coincidências, ter aparecido no dia de Santo Antônio, quando a dona Isabel fez a promessa para que eu conhecesse alguém. E quando eu também pedi que ele chegasse. Eu queria tanto uma pista, alguma coisa que me desse a certeza.... Quanto mais eu conheço J., mais eu vou descobrindo coisas de que gosto nele; mas por que será que não aconteceu nada daquilo que eu previa? As estrelas cadentes, os fogos de artifício, o perf..... o perfume! Será?

- Dona Ana, telefone.

A dona Isabel me chamava da porta da sala. Eu nem tinha percebido ela entrar para colocar os jasmins na água. Fazia questão de cuidar dos arranjos das flores que J. me mandava.

- É ele?

Nem pensei antes de perguntar. A dona Isabel balançou a cabeça e sorriu, cruzando os braços em frente ao peito e batendo um dos pés do chão.

- Não, é a mãe da senhora.
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Confissão #92

As notinhas via PublishNews:

10/04
Histórica Tiradentes
O Globo - 8/4/2006 - por Manya Millen e Rachel Berthol
Neste mês em que se celebra a memória do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, enforcado em 21 de abril de 1792 por sua luta pela Independência, a escritora, editora e historiadora da arte Lélia Coelho Frota envia às livrarias uma edição atualizada de Tiradentes - Retrato de uma cidade (Bem-Te-Vi, 155 pp., R$ 75). Na obra, que terá sessão de autógrafos daqui a uma semana na cidade histórica mineira onde nasceu o alferes, Lélia traça um guia cuja partida se dá no período colonial, quando o barroco e o rococó eram as principais expressões da arquitetura. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira são alguns dos nomes que aparecem na reconstituição histórica de Tiradentes, cujo destino no século XX não é estranho aos ideais do Movimento Modernista da Semana de 22, com sua "descoberta" do Brasil. As fotos são de Pedro Oswaldo Cruz e a introdução do historiador Francisco Iglésias.]

Thiago de Mello
O Globo - 8/4/2006 - por Manya Millen e Rachel Berthol
O jornal o Globo de sábado divulgou que o selo Karmim comemora os 80 anos de vida do poeta Thiago de Mello, que se completam no dia 30 de junho, com o lançamento do CD A criação do mundo, reunião de poemas musicados. Foram selecionados 32 textos do escritor. Segundo a coluna No prelo, entre os poemas, dois inéditos - "Amor sem fim", dedicado à sua mãe, Maria, e "A lição das águas", dedicado ao filho Manduka


11/04
Virada Cultural vem aí
PublishNews - 11/4/2006
Nos dias 20 e 21 de maio São Paulo vai viver, mais uma vez, uma grande maratona cultural de 24 horas em todas as regiões da Cidade. A realização é da Secretaria Municipal de Cultura, Secretaria Estadual de Cultura, Sesc São Paulo e SP Turis. O objetivo da iniciativa, que já faz parte do calendário cultural de São Paulo, é levar as pessoas a se apropriarem do espaço público, assumindo e celebrando a cidade por meio da cultura. A primeira versão do Virada Cultural aconteceu entre os dias 19 a 20 de novembro do ano passado (2005). Durante 24 horas a cidade esteve mobilizada em torno de múltiplas atrações culturais, o mais eclético possivel. Foram mais de 3 mil artistas que se apresentaram em 250 locais. Os principais articuladores do evento foram a Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, o SESC São Paulo e a SP Turis. A adesão espontânea de muitas outras entidades também foi marcante e transformou a Virada em um sucesso e um momento importante na cultura da Cidade. Não é a toa que uma nova versão de outono vem ai

Revista Mnemozine 3
PublishNews - 11/4/2006 - por Renata Sturm
A edição eletrônica número 3 da Revista Mnemozine chega um pouco mais leve, mas nem por isso sem conteúdo. Ela agora pode ser baixada com maior facilidade no computador por causa do seu novo formato. Já o peso está no conteúdo, que além de trazer uma homenagem a poeta Alice Ruiz, com ensaios sobre sua obra, poemas, canções, e, na seção Retrovisor, edições raras de seus trabalhos. A revista eletrônica também traz prosa e poesia em criação, artigos, desenhos, de outros homenageados, como Alzira Espíndola, Ana Carolina Murgel, André Malta, Antonio Gamoneda, Antonio Maura, Arnaldo Antunes, Breno Sebastiani, Dirce Waltrick do Amarante, Donny Correia, Edson Cruz, Edward Fitzgerald, Edward Lear, Francisco Faria, entre muitos outros. Nesta edição a Revista Mnemozine também lança um hotsite onde você pode acessar as edições anteriores, assim como deixar sua opinião.


17/04
Livro tabelado
O Globo - 15/4/2006 - por Manya Millen e Rachel Berthol
Os livreiros brasileiros, preocupados com a concorrência das grandes redes, comemoram a aprovação no México da lei que institui o preço único para a venda de livros. Segundo as colunistas de No Prelo do jornal o Globo, os livreiros esperam que a iniciativa inspire os legisladores brasileiros, que votaram a Lei do Livro em 2004 sem contemplar essa questão.


19/04
Semana Desligue a TV chega ao Brasil
PublishNews - 19/4/2006
O Desligue a TV é a seção brasileira da TV-Turnoff Network, um movimento internacional ativo desde 1994, para conscientização da opinião pública sobre o impacto negativo do excesso de influência da televisão na vida moderna. A proposta do projeto não é banir a televisão, mas discutir sua utilização excessiva e elaborar atividades alternativas que visam promover hábitos saudáveis. Presente em mais de 20 países do mundo, o TV-Turnoff Network é representado no Brasil pelo Instituto Alana e promove – em conjunto com escolas, comunidades, associações, empresas, entre outros – a Semana Desligue a TV, que acontece, pela primeira vez no país, de 24 a 30 de abril de 2006. A Semana Desligue a TV consiste em um esforço concentrado para que, em sete dias, simultaneamente em vários países do mundo, as pessoas não utilizem a televisão em seus lares. Durante o evento é realizado uma programação completa de atividades sociais, culturais, esportivas e artísticas; com o objetivo de distanciar os olhos da telinha. Com ações junto à mídia e ao público em geral, o Desligue a TV pretende ir além do questionamento sobre a qualidade dos conteúdos televisivos. Quer demonstrar que superar o hábito da televisão é uma experiência libertadora e divertida. Para saber mais e conhecer toda a programação que será oferecida na próxima semana, acesse: www.desligueatv.org.br e www.tvturnoff.org


20/04
Prêmio Nacional Academia de Letras da Bahia Braskem
MinC - 14/4/2006
As inscrições para o Prêmio Nacional Academia de Letras da Bahia Braskem 2006 estão abertas até o dia 31 de outubro para os interessados em escrever um ensaio sobre o romance baiano no século 20. O vencedor vai receber R$ 15 mil e terá seu livro publicado. Para participar, o candidato deve enviar os originais pelo correio para a Academia de Letras da Bahia no endereço: Av. Joana Angélica, 198, Nazaré, Palacete Góes Calmon, Salvador, Bahia, cep.: 40050-000. Serão aceitas apenas obras inéditas. Informações pelo tel: 71-3321-4308 e letrasba@terra.com.br. >> Leia mais

Já nas bancas a nova edição do Rascunho
PublishNews - 20/4/2006
A 72.ª edição do jornal literário Rascunho, que comemora o sexto aniversário da publicação da editora Letras & Livros, de Curitiba, traz um longo ensaio produzido pelo escritor e jornalista José Castello, que propõe aos leitores redescobrir a grande literatura principalmente como fonte de prazer, livre das influências perniciosas do marketing, da moda e de quaisquer didatismos e burocracias. Outro destaque do mês.
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Confissão #91

Hoje é, sem dúvida, o mais mineiro dos feriados.
O Idelber fala da morte de Telê, com uma linda homenagem.
Na capa do Uol tem chamada para o blog do Juca Kfouri, que lembra que em vinte e uns de abril morreram Tiradentes, Tancredo e Telê.
E só para ficar entre mineiros, coloco aqui um texto inédito, escrito para homenagear outro grande daqui da terra, que não tem nada a ver com 21 de abril. Não? Vai ver, até tem...

*****

Santo Antônio. São Francisco. No quando a menina se criava pelas pétalas, a Tia fazendo promessa, rezando novena. Santo Antônio, seu devedor, solteirona que tinha ficado, apesar de ter muito se ancorado no santo. São Francisco porque tinha visto em certa viagem, Arrozeado, uma imagem grande do santo, aos seus pés, cercado de bichinhos, avezinhas sobre os ombros, comendo na mão estendida. O santo governava as avezinhas, havera de ser assim também com os anjos. De anjinha, a menina, dita Jinha a gosto da mãe, que morreu tão logo fez a promessa: “Se vingar, vai vestir de anjo até os sete anos”. Falou assim e morreu, nem viu a filha desarroxear. Falaram que era milagre; outros, que era troca, a mãe tinha ido no lugar da filha. Apressaram em arrumar roupa de anjo para a menina, enterraram o umbigo e plantaram uma roseira, por costumes. Depois viram, nem espantaram: as rosas que nasciam roxas, para branquear mais tarde, feito a menina. O Pai, muito novo mas muito viúvo de si, disse que não colocava outra mulher dentro de casa, ia fazer nojo prolongado, triste triste, amor sem remetente, extraviado. Amar quem morre é amar eterno. Passou dias olhando a menina, sem saber de providências. Não botava culpa, a mulher assim tinha querido, assim tinha pedido, santa que era. As vizinhas acorrendo, mas ninguém não podia ficar para dormir, não pegava bem para viúvo fresco, nem mesmo se fosse a Velha, velha-velha, sem encanto um. Escreveu para a família, se ainda não estivesse casada era para vir a irmã, ele repunha as despesas, em ela chegar. Não estava. Chegando, viu a menina, tão anjinha, tão inocente, tomou cuidados. Em dias brigou com o irmão, tirou a túnica de luto da menina, que aquilo de anjo vestido de preto ofendia era a Deus. Acordaram só na fita preta no cabelo, cacho cacho, mesmo tão pequena, a Jinhazinha. A Tia cuidando, roupa branca, asa de pena para quando saísse de casa, até a igreja, coroa dourada na cabeça, anjinha mesmo, de se notar, admirar, comentar. Tinha até quem se benzia.

A Tia achou proveito no arranjo, não passava mais por moça enjeitada: não casava por ter obrigações com o irmão, com a anjinha. Como se fossem dela, a responsante. A Jinha rezou mesmo antes de falar, antes de ter tenência nas mãos, muito miudinhas, muito postinhas, no meio do peito. Fechava os olhinhos, parecendo dormir, até tomar tino tão logo a Tia calava a Salve Rainha.

Em muito pequena, a Jinha não se acostumava à roupa. Esperneava, levantava os bracinhos; mas crescendo, não sabia vestir outra coisa, nunca tinha, nunca teve. Acostumou-se. Passou ela mesma a ajudar a Tia, catando pena no quintal, para as asas. Quando aprendeu a falar, dizia que só não voava por não querer, Deus permitia. A Tia preocupou, falou com o Pai, muito bom, cumpridor, mas que não desvestia a menina antes dos sete anos, promessa feita a morto não se descumpria. No além da vida também se vive. A Jinha gostava, cumpria, acrescentava, fazia mais que a obrigação. Apartada das outras crianças, não travessurava; motivo de ralhar com ela, nunca que deu. Vivia miudinho, sem ocupar espaço. Acercava-se era da roseira – a do umbigo-, cuidava, tratava, cheirava, conversava. Chegasse perto, ela fingia rezar, a Tia percebeu. Perguntou o que era. “Posso dizer, não”, sorria a Jinha. Toda anjo, toda olho nas costas, se tentassem ouvir sem permissão. Suspirava, suspirinho. Passarinho, passarinha. “Como se soubesse”, o pensamento da Tia ignorava. Pois sabia! Quem nem sabia era o Pai. Mas a Jinha pediu e ele ficou, só disse: “Vai não...”, e ele não foi. Fazia os gostos da menina, tanto que a Tia reclamava, dizendo que ia pôr a anjinha a perder, que o diabo atenta mais quando em facilidades muitas. Mas qual o quê? Ele fazia e a menina continuava lá, anjinha de tudo. Estava de saída para a vila, negociar uns porcos acabados de engordar, comprar comida, que faltava, a Tia passando a lista, longa. Mas a menina tinha pedido. Ela quase nada queria, simplesinha que só; ele nem pensou em recusar. A Tia quis saber por quê, chamou a Jinha e perguntou. “Vai chover”, ela respondeu, toda certa, fatal, como se lhe houvessem perguntado o nome. A Tia olhou o céu, duvidou. Nem meia hora, as duas entretidas na reza, o pai entrou em casa, denunciando chuva forte, a caminho. A Tia carregou na reza, agradeceu. A Jinha nem riu, nem botou banca, sabia. Foi escuridão de noite sem lua, fatalidade de telhado desabando: o céu. Breve, fez grandes estragos, tinha caído a ponte, depois ficaram sabendo. “Bem que o pai não estava em cima, na hora, no aprazado, no combinado”, a Jinha disse no casual e no diferente a longa frase, sem economizar palavras. E riscou o ar com a mãozinha, muito grave, muito natural, com a agilidade de um raio: “Cabrummmm”. Pensou, fechadinha dentro das asas: “A véspera só pega o desprevenido”.

Foi então que a Jinha deu para dizer frases, do nada. A Tia queria saber onde aprendera e ela só sorria de volta. Uma frase mais linda que a outra. A Tia copiava de cabeça, depois passou a escrever. Tantas, tantas. “Tem milagre demais no mundo”. “Saudade é um fiozinho de Deus”. “A gente nem vive, só espera o de morrer”. “Felicidade é descuido da dor”. Eram das que a Tia sabia de cor, que repetia reconhecendo mais o sentido, a cada vez. Pegava amor e medo. “Ainda bem a tia não foi”, disse, toda dogmas, quando chegou notícia da festa na vila, o foguetório explodido, matando gente. A Tia tinha pensando em ir, quem sabe um pretendente. Pegou peixe frito do prato do pai, mostrou o espinho, fino, disfarçado, escondido, riu-se afiada: “Ainda bem o pai não comeu”.

Antes, o Pai querendo ir à vila, perguntava. A Jinha erguia as asinhas muito erguidas, brancas, parte dela, e dizia: “Deus cuida”. Acreditavam. Eles. Ele e Ele. Já tinha seis anos em dia que o Pai perguntou e ela respondeu: “Jinha cuida”, colocando a santa mãozinha dela dentro da mão dele, para ir junto, como se combinado de velho. Ela quase nem ia, só para a Semana Santa, mas nem por isso se espantou, olhou tudo com desdém, como se cansada de ver, bisver, trisver. O Pai mostrava e contava, e ela só bondade, delicadeza, anjinha que era, fingindo não saber. Em casa, a Tia quis saber, que tal. A Jinha só fez um muxoxo com as asinhas, nada disse, nem ter gostado nem não ter. Mas depois assuntou, faceirinha, santa diabrura, para a Tia aproveitar a reza antes de dormir: “Vi seu noivo”. A Tia quis saber mais, como quem não queria, mas ela só repetiu: “Posso dizer, não”.

Na seguinte ida do Pai à vila, a Tia quis ir também, saber do noivo. Mas a Jinha não se agradou de promessa alguma, não ia. A Tia não podia deixá-la sozinha, embirrou de ficar. Gostava de não ter obrigações, de casar, de ter casa e filhos, próprios. “A vida é longe”, a menina disse, para acalmar a Tia, que entendeu que “a vila é longe”. “Não para quem pode voar”, a Tia debicou, desgostosa, enervada. A menina não respondeu de pronto. Rezou, cuidou da roseira, tirou a armação de asinhas das costas, a aureola, os sapatinhos. Limpou tudo, lustrou, como novo. Depois sentou. Na porta, em frente à casa, esperando o pai voltar. Dali não se mexeu, não levantou para nada, nem rezar. A Tia chamou, ela só respondeu: “Tem um nome tão feio...”. E riu suspirado. A Tia tinha perdido as doçuras, sem tento de esperar, só pensando no noivo, só querendo o noivo, que ela soube existir. A Jinha, conformada, que antecipasse a véspera, então, "vem no velório", pensou de si para si. O pai chegou, tinha comprado presente. Os três na sala, ela, o pai, a Tia. Ela só respondeu: “Ih, que agora é tarde, pai”. Levantou e encumpridou abraços em cada um. Ao invés de pedir a benção, como de costume, abençoou. Nunca mais que levantou, aceitava comer só uma pétala por dia, sentindo falta de mais nada, alimentada. Anjinha de verdade. A Tia e o Pai querendo saber, ela só dizia, e mais não falava: “Vestir de anjo até os sete anos”, preparava. Veio o dia. A Jinha só abençoou, quando pedida: “A Jinha cuida”. Ninguém nem ficou triste, quem olhasse: “Parece dormindo, feito anja, voltou”. A Tia preocupou de encomendar caixãozinho que coubesse as asas, falou com o Pai: “São tão lindos, os anjos...”. “Tinha milagre demais no mundo”, o pai soube, nem sabendo que sabia.
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Confissão #90

Lanço meu novo livro, Um defeito de cor, na livraria Quixote, em Belo Horizonte, no dia 12/05. Os leitores de lá, interessados em ir, por favor me escrevam para que eu possa enviar o convite:
anamariagoncalvesARROBAgmailPONTOcom.

Acho que mais tarde também teremos no Rio e em São Paulo. Portanto, quem for dessas cidades também pode escrever, pois já estou montando o mailing para a editora.

Estou muito feliz por ver esse livro pronto, e qualquer dia falo sobre ele.
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Confissão #89

Capítulo 11 - Parte III


Do que são feitos os sonhos


Duas mãos vendaram meus olhos.
- Adivinha quem é? – perguntou o dono delas.
- J.!
- Estava pensando em mim, é?
J. contornou a cadeira, parou na minha frente e sorriu, do jeito que sabia que eu gosto, só pra me provocar.
– Ou então como sabia que era eu? – insistiu.
- Pelo seu perfume – respondi.
E era verdade; ele é um dos homens mais perfumados que já conheci.
- Hum.... então já notou meu perfume?! É bom saber! Viu como eu me arrumo todo para vir me encontrar com você?
- Devo admitir que sim...
J. me deu um beijo no rosto e me entregou um embrulho que disse conter um presente que era a minha cara, e foi até a casa pegar uma cadeira para ele. Eu gostava de ficar na praia, vendo o pôr-do-sol; estando na ilha, ele sempre me acompanhava. Sempre trazia presentes, flores, bombons, uma garrafa de vinho ou de champagne. Uma vez, tentei dizer que não aceitaria mais, mas J. não deixou, disse que era uma alegria para ele. Acho que falei também só da boca para fora, porque eu estava adorando ser paparicada daquele jeito. Mas isso eu não disse a ele...
- Eu queria uma foto sua agora... – era J. voltando e se sentando ao meu lado; eu, com o presente nas mãos, não sabia o que dizer.
- Já disse que nada de fotos. Como os índios, eu acho que elas aprisionam a alma da gente – foi do que me lembrei para dizer. – Onde você conseguiu isso?
- Já te falei que eu consigo tudo o que você quiser, não falei? – disse J., segurando meu queixo a uma distância muito pequena do rosto dele, com o olhar quase a me fazer um carinho. – E falo sério, posso te fazer muito mais feliz do que este cara aí no qual você está pensando. Ou já não está pensando mais nele tanto assim?
Eu ia retrucar que tínhamos combinado nunca mais falar do assunto, mas não era disso que J. falava. Não era isso que importava e nem o que estava em discussão. J. era um homem inteligente e eu passaria por idiota se tentasse fingir que não tinha entendido. Eu nunca acreditei muito nas coisas que ele falava, sempre com aqueles ares de conquistador para o meu lado, olhares de boto, como dizia a dona Isabel. Mas naquele momento eu acreditei. E não sabia o que dizer. Ao mesmo tempo que gostava, que era bom, que me sentia vaidosa pelo que ele sentia por mim, não era. Eu não queria ter dúvidas, não vim até a ilha para ter um caso, um romance de férias, mesmo que ele dissesse que não era isso o que queria comigo. Que era sério, que ele tinha se apaixonado. E que quanto mais eu tentava afastá-lo, com o meu jeito de mulher séria e que sabe o que quer, mais ele me queria. Porque ele sabia que eu não estava representando, que eu era assim, e era assim também a mulher que ele queria ao lado dele. E eu queria alguém que me tratasse como ele tratava...
- Eu nem sei o que te dizer. É a coisa mais linda que já vi.
Outro dia conversávamos sobre se sentir estranho no mundo, da mesma maneira que J. também dizia se sentir. Contei a ele que eu tentava me acertar, tentava acertar meus passos com esta nossa época e não conseguia. Que me sentia dona de uma alma antiga, conservadora e romântica, que me remetia à época dos castelos, das cortes, das conquistas e dos amores velados. Ele me chamou de princesa e disse que qualquer dia me daria um presente à altura.
- E ainda faço amor com você em uma cama coberta de pétalas de rosas... – complementou, naquele dia.
Qual é a mulher que não se derrete toda diante de tal imagem? Pode parecer a coisa mais piegas do mundo, mas só para quem está do lado de fora. Durante dias seguidos me imaginei sim, fazendo amor sobre uma cama coberta com um lençol de linho branco, bordado, e pétalas de rosas. Vermelhas.
Agora J. me trazia de presente um porta-buquê. Eu tinha visto alguns em uma exposição de jóias antigas no museu e comentei com ele, que disse que sempre me daria flores, à espera de um porta-buquê. E cumpria a promessa, quase todos os dias mandava flores, mesmo que não estivesse na ilha. Mas nunca imaginei que poderia cumprir a segunda parte dela. Eu não estava acreditando, era uma peça linda, provavelmente em prata, toda trabalhada com recortes e relevos de delicadas figuras de flores e anjos. Tinha mais ou menos o tamanho da minha mão aberta, de forma cilíndrica, e com um acabamento tão perfeito que parecia renda prateada. Era leve, e da ponta inferior, onde o cone quase se fechava, pendia uma correntinha, também de prata, terminando no que parecia ser um anel cravejado de minúsculas esmeraldas. Para que não se perdessem, as sinhazinhas os colocavam nos dedos e saíam a caminhar pelas ruas, levando os porta-buquês vazios à espera da cortesia dos pretendentes. Aquilo era uma peça de colecionador, muito mais bonita do que as que eu tinha visto no museu.
- Eu não sei se digo que nunca ganhei e que acho que nunca vou ganhar presente igual, ou se recuso dizendo que não posso aceitar. Isto deve ter custado muito caro...
- Se eu estou dando, é porque posso, não é? – ele me interrempeu - Não quero que você se preocupe com isso.
J. devia ser muito rico sim, embora fosse razoavelmente simples. Já tinha colocado à minha disposição uma lancha com marinheiro, e às vezes me contava sobre alguns lugares para onde tinha viajado, ou sobre situações que tinha vivido, nunca de uma maneira esnobe, mas de quem estava acostumado a ter dinheiro e saber gastá-lo bem.
- E eu não vou te cobrar nada por isso – riu, parecendo imaginar que eu podia estar pensando que ele queria algo em troca, ou que eu estivesse me sentindo na obrigação de retribuir.
J. falava baixinho, alisando o meu rosto com o dorso dos dedos, olhando nos meus olhos, bem de perto.
– O que eu quero de você é o que você vai querer me dar. E eu não vou querer pagar por isso, está bem?
Raramente senti tanta ternura por alguém como senti por J. naquele momento. Uma vontade de gostar, de retribuir, de me apaixonar por ele. Fiz que guardei um beijo no porta-buquê e levei aos lábios dele. Quando ele fechou os olhos para recebê-lo, troquei a peça pelos meus lábios.
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Confissão #88

Capítulo 11 - Parte II


Do que são feitos os sonhos


- Mas nunca a encontraram...
O Zé falava de Lorelei, da esperança de voltar a vê-la.
- Eu sei, Zé, mas, depois de tanto tempo...
Eu não tenho a pretensão de dissuadi-lo da espera, talvez ele precise dela.
- Mas, Zé, se é o que você sente...
Para falar a verdade, eu seria mesmo a última pessoa a convencê-lo de que Lorelei está morta, mesmo sem a prova irrefutável. Não sou eu que estou esperando por alguém que nem sei se existe? Quer dizer, sei, mas também não posso provar. Às vezes acho que devo começar a duvidar, para não estar tão despreparada se este alguém não chegar. Talvez fosse melhor começar a pensar assim, para ter uma grata surpresa.
- Depois do acidente com a balsa, passei dias e noites no mar, buscando por ela. Andamos por toda esta baía, porque daqui não tem como ela sair.
É verdade, a baía tem o formato de uma ferradura, e o movimento de suas águas nunca leva nada para o alto mar. A ilha funciona como uma espécie de quebra-mar, recebe as correntes marinhas e tira a força delas. Todo o movimento de qualquer coisa que aqui entra, ou que se perde aqui dentro, vai apenas da ilha ao continente. Como se tivesse mesmo encontrado um leito de mar, como se tivesse voltado ao lugar a que pertence, o lugar que escolheu para dar cabo dos dias.
- Você nunca mais esteve com o circo?
- Nunca. Durante algum tempo, nos primeiros anos, tinha até notícia deles; minha mãe escrevia de vez em quando. Mas depois soube que ela morreu. Meu pai queria que eu voltasse, o circo foi vendido... Nunca mais.
Eu tenho curiosidade em saber do que o Zé vivia. Nunca o ouvi falar de trabalho, de dinheiro. Mas não tinha coragem de perguntar. E se ele não tinha falado, talvez até se envergonhasse; aqui não tem muito o que fazer. Se exerce alguma atividade, deve ser muito aquém das capacidades dele. Era outra coisa na qual eu precisava começar a pensar também. Deixei o emprego, desgostei da profissão, não quero mais voltar a morar em nenhum dos lugares pelos quais já andei. Talvez quisesse mesmo ser trapezista do circo que o Zé diz que ainda vai ter...
- Era aqui que planejávamos nos casar. Sempre venho para cá à procura de uma pista dela. Eu descrevi bem este lugar, disse a ela onde ficava, como chegar, e ela pode vir até aqui se encontrar comigo, pois sabe que estarei à espera. Às vezes eu a imagino vinda das águas, a minha sereia do Reno, nadando nua, linda, nestes mares tropicais, numa noite de lua cheia...
Era mesmo um local de fantasias, a ilha e principalmente estas ruínas. Estávamos no cimo de um morro, um dos mais altos, de onde se via uma extensão muito maior do mar. Do outro lado, o interior da ilha, era desabitado; os povoados ocupavam apenas uma pequena faixa próxima ao mar. No centro permanece uma mata verde e abundante; acho que nesta época de chuvas ainda mais verde do que o normal. Este lado emoldurava a enorme construção abandonada, as ruínas de uma igreja jesuíta construída no início do século dezesseis. O Zé comentou que deveria ser a mais antiga do Brasil, e se percebia mesmo o ranço de velhas histórias, para as quais não se dava mais atenção, como argamassa sustentando as paredes.
Grossas paredes, tendo com certeza mais de meio metro de espessura, se erguiam contra a paisagem; acredito que aproximadamente por uns vinte metros mais perto do céu, cobertas de rachaduras e mofo. Não havia mais teto a sustentar, apenas a leveza do céu aberto e o peso do tempo. Delimitavam um enorme e bem iluminado vão central, com chão de terra batida. Ao fundo, um espaço mais estreito e elevado que deve ter sido o altar, acessível por degraus irregulares muito bem conservados pela terra compactada. Nas paredes, alguns nichos altos ainda com imagens de santos, impossíveis de serem reconhecidos por causa da vegetação que os recobria. Nos nichos mais baixos, quase ao alcance das mãos, apenas o vazio. Em cada parede lateral, duas enormes aberturas em formato de arcos levavam a pequenos salões, também descobertos, que devem ter sido salas de orações e sacristia.
Mas o que mais impressionava era o que acontecia no alto das paredes. Sabe-se há quantos anos, ou séculos, pássaros devem ter levado até lá sementes de gameleira, uma árvore bastante comum aqui na ilha. A gameleira é considerada sagrada no candomblé, uma das religiões trazidas pelos negros africanos. Por estar próxima ao continente, mas ao mesmo tempo grande e longe o suficiente para esconder escravos fugidos, a ilha era um dos locais preferidos para as comunidades chamadas quilombos. Num sincretismo também da natureza, o candomblé, literalmente, ali espalhava suas raízes no templo católico. Nutrindo-se, por certo, das condições de umidade e sustentação oferecidas pelo barro, as largas paredes têm sobre elas majestosas gameleiras, por toda a extensão da construção. Grossas raízes aéreas sustentam troncos que para serem envolvidos provavelmente precisariam de dois ou três pares de braços. Raízes que, numa escalada invertida, descem pelas paredes e vêm se espalhar pelo chão. De um lado e do outro, mantêm de pé as árvores, as paredes e as memórias daquele lugar.
- Eu, que nunca me casei, Zé, digo, oficialmente, acho que também me casaria aqui. Uma cerimônia diferente, simples, poucas pessoas, ou nenhuma... Este lugar inspira a gente a jurar amor eterno.
- É – ele concordou comigo –, ou a chorar amor eterno...
- Mas você contou a história direitinho para a dona Isabel? – lembrei-me de perguntar quando o Zé falou de amor eterno.
Eu sabia que ele falava de Lorelei, mas não me conformava com aquela situação, com aquelas histórias mal interpretadas.
- Contei, várias vezes, mas ela não quis acreditar. Na época o marido dela também contou, mas aí ela acreditava menos ainda.
- Você acha que eu devo tentar, Zé?
Havia dias que eu vinha pensando naquilo, mas queria falar primeirocom o Zé. Perguntei:
– Ela realmente acredita que o marido a traía com a Lorelei?
- Acredita, ou prefere fingir que acredita. É muito mais fácil numa situação como esta.
Acho que o Zé tem razão; neste caso talvez seja melhor mesmo não falar nada. É enorme a raiva que a dona Isabel ainda sente do ex-marido, ou precisa sentir; a raiva que de alguma forma desconta no Zé. Provavelmente não suportaria se tivesse que senti-la por ela mesma, reconhecer que esteve errada durante todos esses anos. E de uma maneira irreparável.
O Zé me contou a versão dele. Quando aconteceu o naufrágio da balsa onde estava Lorelei, ele quase enlouqueceu de tanto desespero. Mas mesmo assim não acreditou que ela estivesse morta. Depois de alguns dias, sem que encontrassem mais nenhum corpo, suspenderam as buscas. O Zé resolveu continuar a procura por conta própria. Na época, morava em uma casa ao lado de onde dona Isabel e o marido eram caseiros. O marido dela, que se chamava Natanael, tinha um barquinho que usava para pescar, complementando assim a renda da família. Tinham duas filhas. O Zé disse que eram vizinhos muito bons, prestativos, que o ajudavam em muita coisa. Então pediu que o Natanael o ajudasse com as buscas no mar, já que ele, sozinho, apenas perambulava pelas praias. Os dois ficaram muito amigos, dia e noite circundando a ilha, conversando, bebendo, falando de amores. O Zé disse que o Natanael tinha um amor enorme pela dona Isabel, mas ela começou a desconfiar que o marido a traía quando dizia que ia para o mar com o Zé, procurar uma defunta que nem tinha mais carne para boiar.
Eles nunca traziam peixes, mas saíam todas as noites e voltavam com o sol nascendo, geralmente bêbados. O Natanael comovia-se com a dor do Zé, com a história da sereia das “europas”, e não atendia ao pedido da dona Isabel para que não fosse mais. Até que um dia, delirando de bêbado, ele pronunciou o nome de Lorelei, que a dona Isabel desconfiou ser o da amante com quem ele ia se encontrar, usando o Zé como desculpa. Ela o expulsou de casa e nada a fez acreditar que estava errada, mesmo porque o nome da moça pela qual procuravam, que o Zé dizia ser sua amada e conforme tinha saído nos jornais, era Mercedes.
- Lembro-me de que sofriam os dois. Como eu morava na casa vizinha, ouvia a dona Isabel chorando de lá, as filhas tentando consolá-la, uma tristeza só. E o Natanael chorando de cá, bebendo o dia inteiro, aparecendo para fazer escândalo. Até que sumiu por alguns dias e depois o encontraram morto na praia. Pelo que falaram morreu afogado e o mar devolveu...
Esta história do Zé batia com a que a dona Isabel havia me contado, mas ela acreditava que o marido tinha saído de casa para ir morar com a amante. Uma tal de Lorelei, que devia ser de Salvador, porque ela conhecia todo mundo por ali. E quando a espertinha da amante viu que não ia ter mais só do bem bom, mandou-o de volta. Mas a dona Isabel não e aceitou. E então ele deu para beber e morreu de desgosto. Não por ela, que tinha estado com ele a vida inteira, mas pela outra, que nem apareceu para chorar o morto.
- Nem o mar quis ficar com o traste – disse a dona Isabel com os olhos secos e vazios de quem já tinha chorado tudo o que tinha para chorar. – E ainda tive que fazer despesa para enterrar aquele um...
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Confissão # 87

Capítulo 11 - Parte I


Do que são feitos os sonhos


E se eu já estive frente a frente com você e não soube? Será que teríamos outra chance? Sim, eu posso não ter percebido que era você, por ainda não te amar tanto quanto amo agora. Você não era quem eu procurava porque o meu amor ainda não existia. Você só será o que eu procuro porque o meu amor te personifica. É ele quem vai te dar, não braços, mas um jeito de abraçar. Não corpo, mas um jeito de se mover. Acho que é isso que o amor faz com os que são amados, metamorfoseia seus atos e seus gestos, que ainda não conhecemos, dando a eles um corpo, uma casa, uma dimensão muito própria que só entre os amados se torna perceptível. Os amados, que então passam a habitar aquela zona imantada que os liga um ao outro, fazendo com que se bastem; repelindo as verdades exteriores ao campo magnético formado na órbita dos dois...

Eu amo o que sinto por você, eu me amo quando te amo, quando fico encantada com este meu estado de fertilidade emocional. Quando eu te amo, percebo que amo no máximo do que consigo sentir por mim. Eu amo a possibilidade de a troca vir a ser na mesma proporção. É mesmo como diziam os gregos, de sermos completos no amor do outro, de nos bastarmos quando somos sujeitos e objetos do mesmo amor. O princípio e o fim do sentimento que proporcionamos ao outro para percebê-lo em nós mesmos. Amo os momentos que me proporciono quando fico feliz só de pensar em você. Amo o que acho que tenho de você quando te aprisiono dentro do meu amor, assim como a Alice do espelho. É assim que você também me ama? Precisava tanto que dissesse que sim... Tanto...
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Confissão #86

Capítulo 10 - Parte XII


Sobre os olhos rasos d’água


S. me contou que tem outra namorada. Outra não, que tem “uma” namorada, porque a mim ele nunca namorou. Hoje percebo como fizemos planos, como pensamos em morar juntos, e nem chegamos a namorar. Não que eu ache que uma relação tenha que cumprir etapas, mas com isto percebo que ele nunca assumiu nada comigo. E eu não acredito que tenha sido apenas por medo, como ele diz. Da última vez em que estivemos juntos ele não teve coragem de me contar que, com a outra, não tinha medo. Sumiu, deixou que eu adivinhasse o que já era óbvio. E me consola dizendo que está feliz. E eu só espero que esteja mesmo, e que o seja para sempre, que não venha mais me falar de infelicidades e de desacertos, que não venha mais me pedir ajuda.

É terrível, mas acho que agora ainda dependo mais de S. do que gostaria de depender. Talvez eu nunca mais consiga amar alguém e ser feliz, e preciso que S. me prove o contrário através da história dele. Qual é a impressão que fica quando alguém não aceita o nosso amor? Para mim, isto quer dizer que este alguém pode ser feliz sem ele, que talvez o meu jeito de amar não faça mesmo ninguém feliz. Será que existe um jeito certo para isso? Existirá um tipo de amor que pode dar certo? Eu não quero mais pagar para ver.

Pedi a S. que não me procurasse mais por um bom tempo, nem para saber como estou. Vou dizer o que? Que estou bem, só para que ele não se sinta tão culpado? Sinto muito, mas quem anda precisando de paliativos sou eu. Sofro tanto que até pensar dói, como se as palavras fossem pingando lentamente sobre uma superfície metálica, lentas, cortantes, insistentemente perfurantes: uma tortura. E eu seria capaz de confessar qualquer coisa pra acabar logo com isso. Seria capaz de confessar que a culpa é minha, que ainda escondo pelos cantos restinhos de esperança, que traio meus próprios sentimentos. Eu confesso. A culpa é minha, e não o entrego, o S., não o entrego.

Dentro de mim aconteceu uma festa da qual não participei. Arrastaram móveis, colocaram música alta, dançaram, se divertiram e foram embora, deixando a bagunça para que arrume no dia seguinte. Ainda deixaram portas e janelas abertas a noite toda, uma de frente para a outra, entrou uma corrente de ar que não deixou nada sobre nada. E eu não sei por onde começar a colocar as coisas em ordem. Eu tinha teorias lindas sobre o amor ser uma forma de compartilhar, de ser uma mulher completa e segura que tinha muito a trocar, e não apenas a dar. Eu queria que alguém me dissesse o que faço com isso na prática, o que faço com o que restou de mim, esta milésima parte de um ser. Acho que implodi.

Por que é que eu preciso tanto que alguém abra a porta e diga que me ama, mesmo que minta? Eu queria que alguém sentisse qualquer coisa por mim, mesmo que seja pena. Como a que eu senti no dia em que vi um palhaço bêbado. Velho e bêbado. Durante anos, a lembrança daquele palhaço me dava um nó na garganta e eu chorava onde quer que estivesse. E aí ficava com mais pena dele ainda, que bebia para acreditar que continuava capaz de fazer sorrir, apenas com sua sombra de palhaço. Ele tentava dar cambalhotas e caía no meio delas, interrompia a piada para vomitar na própria roupa. Aí cantava uma música triste e chorava, e ninguém sabia se chorava de verdade ou de palhaçada. Figura mais triste de se ver é um palhaço bêbado. Sabe o que está em jogo ali? Parar de acreditar que as alegrias da infância eram genuínas. Ou pelo menos os motivos delas.

Eu sinto um desespero muito grande de me olhar e não me ver. Sabe quando a gente está crescendo e ainda não se acostumou ao próprio tamanho? Quando esbarramos nas coisas sem querer, quando não sabemos se ainda cabemos nos lugares onde cabíamos antes? Eu sinto exatamente o contrário. Faço os mesmos movimentos de antes e não alcanço nada, olho-me no espelho e não preencho a imagem que tinha de mim, vejo apenas falhos contornos. E me procuro dentro das roupas que S. dizia ficarem ótimas em mim, ou no jeito de prender os cabelos e de sorrir com o rosto todo. Eu me procuro e não me acho. E fico sem saber se era S. que mentia ou se é o espelho que agora mente para mim de forma tão descarada...
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