Confissão #100
No final de 2001, já tendo um assunto que me interessava pesquisar, vendi tudo o que tinha em São Paulo e fui embora para a Bahia, onde eu nunca tinha estado. Botei meus pés nos mares daquela terra encantada como se de lá nunca os tivesse tirado, sob a proteção de Iemanjá. Encantei-me por uma casa de portas e janelas vermelhas, em Itaparica e pra lá me mudei, depois de ter me desfeito de tudo que não coubesse no meu carro.
Durante três meses me ocupei de viver, de me recompensar pelos últimos oito anos sem férias, pelos clientes chatos (nem todos, é claro, principalmente os que me lêem agora hehehe), pelos trabalhos com prazo estourado, pelas procupações em ter que cavar trabalho para pagar contas e salários. Dias de deitar na rede da varanda e ouvir o mar, de catar conchas, de andar a esmo, de ver sol nascer e se pôr, de tomar banhod e chuva morna, de aprender a ver de que lado e quando a chuva viria, de tirar o salto e andar descalça, de me acostumar à drástica mudança. E só depois comecei a pesquisar para Um defeito de cor e a escrever Ao lado e à margem..., que lencei em edição independente no final de 2002. Foi um dos primeiros livros vendidos teclado-a-teclado, ou seja, através da divulgação de blogueiros amigos, quase sem a ajuda da grande midia e sem qualquer estratégiade distribuição para as livrarias. Vendi quase toda a edição de 1000 exemplares, e tive a sorte de um deles cair nas mãos do blogueiro, jornalista, geólogo e aventureiro amigo Gravatá, que fez com que outro chegasse ao Millôr, que me levou para a Record, que agora publica Um defeito de cor.
Não sei se o termo é bem esse, mas "em agradecimento" a tudo o qu os blogs me deram, a partir de certo momento desse aqui, resolvi publicar em partes "Ao lado e à margem do que sentes por mim", e não fazer mais nenhuma edição impressa dele. A que fiz se pagou e me deu muito mais do que eu poderia esperar quando resolvi fazê-la, confesso que por pura ansiedade, por não ter paciência de esperar por respostas de possíveis editoras. E, é claro, por acreditar também.
1 - Levar a sério o processo da escrita. Antes de qualquer coisa, fazer literatura é trabalhar, trabalhar e trabalhar as palavras. Muito. Acreditar em inspiração e esperar por ela é perder um tempo precioso no qual o trabalho poderia estar sendo feito. É claro que há momentos mais propícios ao insight, mas eles devem nos encontrar trabalhando. Fiz 19 versões de Um defeito de cor, e relendo-o depois de impresso vejo muitas passagens nas quais eu devereia ter trabalhado mais, e algumas gralhas que me pegaram (e às revisões) distraída. (por favor, quem o estiver lendo, encontrando mais algumas, mande pra essa que, otimista ao extremos, acredita em próximas edições ;-)). Com isso aprendo que o livro publicado nunca é o livro ideal, mas apenas o livro possível. E isso dá um tremendo alívio para continuar trabalhando.
2 - O trabalho nunca termina depois de se escrever o melhor livro possível, pois, procurar uma editora para ele também dá trabalho. tendo uma vaga noção disso, eu comecei bem antes de terminar de escrevê-lo. Como tive sorte, não precisei passar por esse processo de busca, mas eu estava preparada para ele. Quando decidi que queria escrever e publicar, ainda em 2001, listei 10 editoras das quais mais gostava e, durante dois anos, pesquisei tudo sobre elas: quando e como surgiram, quem eram os editores responsáveis por ficção nacional, assinei boletins de lançamento dessas editoras - para saber em que tipo de livros e de mercados apostavam-, comprei pesquisas sobre o mercado editorial brasileiro, li muitas dicas de escritores publicados, descrobri quais editoras apostavam em iniciantes, qual a parcela de autores nacionais publicavam em relação a traduções etc... É um trabalho que parece não ter muito a ver com as funções de um escritor, mas é significativamente importante para quem quer começar. É preciso que haja uma identificação entre a obra que vai se propor e o catálogo e a visão da editora. Sabe-se que é muito difícil lançar um livro sem Q.I., mas é possível; mas é impossível lançar um livro sem Q.I. mandado para a editora errada.
3 - A apresentação do melhor livrpossível à editora certa também é muito importante. Faz uma bela diferença um original bem preparado, bem impresso, limpo e, de preferência, acompanhado de uma carta e apresentação dirigida ao(a) editor(a) responsável. Na carta, o escritor deve falar um pouco sobre o livro, sobre o que o levou a escrevê-lo, e demonstrar que foi com conhecimento de causa que decidiu enviá-lo para aquela editora. Mostrar que conhece o catálogo da editora, o trabalho que ela vem fazendo, e, por isso, sabe que o livro se encaixa no processo em andamento. Caso contrário, o livro será apenas mais um entre tantos outros que eles recebem (e se você não diz que não, não há porque eles pensarem diferente), e não custa nada facilitar o trabalho de triagem.
4 - Se você acredita na qualidade do seu livro: trabalhe, trabalhe, trabalhe. E invista nele: tempo ou dinheiro, ou os dois. Eu já fiz isso, e não me arrependo nem um pouco.
mas como eu disse antes, cada caso é um caso. Eu estava preparada para fazer tudo isso aí acima, mas não precisei. Ou talvez, até por causa disso eu não tenha precisado. Vai entender as serendipidades da vida... ;-) Mas, levando em conta tudo o que pode acontecer, o que desejo do fundo do meu coração a quem quer tentar, é: sorte! Muita sorte!
Rio de Janeiro - 03 de agosto, às 19:00h, na Argumento (Rua Dias Ferreira, 407 - Leblon)
Paraty - 12 de agosto, às 19:00h, na livraria Nova Paraty (Rua da Praia, 159 - Atrás da Casa da Cultura - como parte da Programação do
Off Flip
São Paulo - 16 ed agosto, às 18:30h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena)
6 Feira do Livro de Ribeirão Preto, de 15 a 24 de setembro, na qual devo falar no dia 20, no Salão de Idéias
Tardes Literárias , dentro da Segunda Festa Portuguesa de Cabo Frio, que acontecerá de 6 a 12 de outubro. Devo falar no dia 7.





